Por Alexis Peixoto - 23/02/2008

Antes de prosseguirmos, é preciso que fique claro uma coisa: não basta gostar de Bob Dylan para poder assistir e entender I’m Not There, a entortada cine-biografia do homem assinada por Todd Haynes. Mais necessário do que saber cantar junto as canções é conhecer as histórias e personagens por trás delas, as circunstancias em que foram escritas e onde elas se encaixam na vida do compositor e no cenário histórico da cultura pop.
Se você não dispõe dessa bagagem, não perca seu tempo vendo o filme: vá ler um livro ou navegar no orkut que você ganha mais. E se ainda assim insistir, estará condenado a passar duas horas aborrecidas tentando entender um filme confuso, sem sombra de narrativa linear e repleto de signos e diálogos que vão te levar do nada a lugar nenhum.
Para os obcecados por Dylan que permaneceram na sala depois que as luzes se apagaram, tenho uma boa notícia: o filme foi feito para vocês, malditos pervertidos. Praticamente cada frame, cada diálogo, cada figurino – pelo amor de Deus! – detém uma referência e/ou “piada interna” para quem se aventurou pelo mundinho que Robert Zimmerman inventou para si.
Os biógrafos e chatos de plantão, portanto, não têm do que reclamar. Está tudo lá: desde a visita ao moribundo Woody Guthrie no início dos anos 60, passando pelo até hoje mal explicado episódio de bastidores envolvendo Pete Seeger e um machado no Festival de Newport, até sua relação conturbada e um tanto sacana com Joan Baez. Tudo filmado num ritmo videoclíptico de encher os olhos dos fãs que já encomendaram a (ótima) trilha sonora via E-bay.
Porém, não crie tantas expectativas. Apesar de todos os motivos citados no parágrafo anterior e da atuação matadora de Cate Blanchett – acreditem, a mulher É Bob Dylan -, I’m Not There é um filme pura e simplesmente… bom; passa longe da pujança e da “investigação do mito” que vem sendo alardeada pela crítica.
Grosso modo, o filme é nada mais que seis estorinhas malacas que não se resolvem nem mantêm qualquer relação sólida entre si, mas remetem aqui e ali a episódios da vida de Dylan. E dentre essas, duas são puro exercício de estilo: o bizarro interrogatório ao qual o personagem de Ben Wishaw é submetido e o faroeste delirante em que trataram de encaixar Richard Gere não trepam nem saem de cima, apesar de serem visual e textualmente agradáveis.
A sensação que fica com os créditos finais na tela é que faltou aquela visão ousada e provocadora que fez o nome de Todd Haynes em trabalhos anteriores. Em Velvet Goldmine, mesmo sob ameaça dos advogados de David Bowie, o diretor incluiu cenas que sugeriam uma amizade mais colorida entre o camaleão inglês e Iggy Pop. Em seu longa de estréia, Superstar, focado na vida e morte de Karen Carpenter, a provocação já vinha a partir do elenco, todo composto por bonecas Barbie.
Em I’m Not There, pois, Haynes tinha a sua disposição um dos mais misteriosos personagens da história do rock’n roll; alguém com áreas obscuras suficientes em sua biografia para um diretor de mente perturbada e com colhões suficientes se fartar. Só que antes de ser um “nome”, Dylan é uma instituição, um monolito americano. E isso parece ter intimidado Haynes.
Embora a audácia ainda esteja lá – afinal, colocar seis atores diferentes para interpretar o cantor (incluindo uma mulher e uma criança negra), é no mínimo uma grande sacada –, o diretor se limita a exibir um quebra-cabeça encaixadinho de tudo o que os fãs (a quem, repito, o filme é destinado) já estão cansados de saber sobre o homem. As tais áreas obscuras que poderiam render um excelente caldo – se melhor iluminadas – também receberam o mesmo tratamento plano.
O “filé” poderia estar, por exemplo, na “fase cristã”, um dos períodos menos explorados e mais controversos da extensa biografia de Dylan – provavelmente devido aos esforços do próprio que não deve se orgulhar muito das coisas que fez no período. E que tal os anos de reclusão em Woodstock, quando o cantor sofreu um misterioso acidente de moto que o deixou fora dos palcos por dois anos, os quais passou escrevendo compulsivamente e comandando longas sessões com a The Band no porão da Big Pink, enquanto seu casamento ia pras cucuias?
Pois bem. Da primeira situação, Haynes faz uma homenagem/macaquito de No Direction Home, de superfície tão plana quanto uma tábua de passar; o segundo fica resumido a um bate-boca besta e uma cena de sexo entre Heath Ledger e Charlotte Gainsbourg. Trocando em miúdos, o provocador Haynes afinou e tratou de evitar cuidadosamente de evitar assuntos mais polêmicos para não desagradar – leia “despertar a ira jurídica” – do biografado.
Claro que a pretensão de I’m Not There não é ser uma biografia historicamente acurada de Bob Dylan, tampouco revelar ao público aspectos nunca antes conhecidos sobre a vida do cantor. Mas a “inspiração” para o filme bem que poderia ter vindo de fontes menos burocráticas e, vale salientar, não dissecadas com precisão cirúrgica por Scorsese em No Direction Home.
O resultado final agrada e diverte, mas não chega a descabelar os fãs mais astutos. Seria de se esperar que um macaco velho como Haynes atinasse para o fato de que as mesmas pessoas que vão saltar da cadeira nas primeiras referências jogadas na tela eventualmente vão se dar conta de que já conhecem essa cantiga de trás pra frente. E, como esse é pré-requisito para se compreender o filme, o diretor termina por acertar um belo dum tiro no dedão do pé.
Sem problemas. A vida de Dylan, de fato, daria uns seis filmes diferentes ou mais. Ao querer fazer todos de uma vez só, Haynes acabou saindo com um filme bem bacana, mas sem muita ousadia: tampouco dotado dos ares de obra prima que vem sendo cantados por aí.
Como ode ao bardo americano e sua trajetória genialmente contraditória, I’m Not There é perfeito; como cinema, tem um punhado perigoso de falhas. Assista de olhos abertos e pés no chão, pois.
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