Por Alexandre Honório - 01/10/2008

Michael Haneke é responsável por uma das filmografias mais difíceis de nossos dias. Em seus filmes parece tênue a linha que separa o desconforto da reflexão. Para muitos, Haneke é, de alguma forma, a manifestação mais desprezível do sádico; para outros, porém, ele tem muito a dizer. Parte disso, nas entrelinhas. E é exatamente nestas que reside o principal atrativo do remake de Violência Gratuita, seu primeiro trabalho para um estúdio norte-americano.
O filme é uma alegoria sobre mídia e violência; sobre a permissividade da primeira em relação à segunda, basicamente. Haneke transforma Violência Gratuita em um carrossel de sensações incomodas e, talvez o traço mais importante por detrás de todo o longa, transforma o espectador em cúmplice de toda a barbárie que ultrapassa o vídeo – interpelando este mesmo espectador inclusive.
Haneke decidiu praticamente por uma refilmagem que preservasse todos os elementos que fizeram do filme original (de 1997) uma espécie de “soco no estômago da audiência” – não muito diferente de trabalhos como Caché e A Professora de Piano. No entanto, como resultado, este “novo” filme é visualmente melhor acabado que o primeiro – apesar disso não significar qualquer suavização do seu conteúdo ou quaisquer concessões em favor do mercado.
O filme conta a história de George (Tim Roth), Ann (Naomi Watts) e Georgie Farber (Devon Gearhart): uma família comum em férias que muda-se para sua casa às margens de um lago em Long Island e que é então surpreendida pela incômoda visita dos jovens Peter (Brady Corbet) e Paul (Michael Pitt) e por seus jogos “divertidos” – a graça do título em inglês, Funny Games, foi naturalmente para o saco na tradução brasileira.
Um dos méritos de Violência Gratuita é nos apresentar a uma sucessão de eventos que, distante da gratuidade apontada pelo título em português, pretende a reflexão sobre o que desponta da tela em nossa direção e, mais, sobre o nosso modo de lidar com o que deixa esta mesma tela. As intervenções de Paul, inquirindo o espectador sobre o que se desenrola enquanto brutaliza suas vítimas é algo ao mesmo tempo imperativo e representativo sobre como encaramos a violência pelo vídeo.
Quando a personagem de Naomi Watts, orientada por Paul (Pitt), procura pelo seu cão – morto logo que a casa é invadida pelos dois jovens -, não há esperança de que o animal seja encontrado com vida, mas, ainda assim, com olhares em direção à câmera, Paul acerba ainda mais tal perspectiva encarando-nos. Paul age como uma consciência que tenta nos alertar de que nada será agradável; que o carrossel de eventos que ele e Peter pretendem conduzir não possui nada de edificante.
O momento, no entanto, em que tal diálogo improvável ganha contornos mais nítidos se dá quando Paul, novamente em direção ao espectador, questiona sobre o fim do filme: a partir de tal ponto de vista percebemos que, inexoravelmente, o destino da família Farber está inscrito no vídeo de modo irreversível. A alegoria final, quando busca o controle remoto para voltar o filme depois que Peter é atingido por Ann, restitui a clara intenção de Haneke: o espectador deve experimentar aquele desconforto até o fim; o espectador deve entender que ele não está no controle.
No fim, diante desta refilmagem percebemos com uma reflexão fácil que, passados dez anos, Violência Gratuita continua, sim, provocador e Haneke permanece surpreendente.
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