Cinemascópio

Gondry Tem a Resposta: Cinema é Sonhar

Por Alexandre Honório - 29/03/2007

science_01.jpg

Então, sonhar. Esta é a resposta de Michel Gondry ao cotidiano: mergulhar no imaginário e dele colher as respostas para a realidade que nos furta sensações – que, na realidade, nos blinda contra elas. Gondry é velho conhecido dos cinéfilos. Companheiro de Spike Jonze (Quero Ser John Malkovich) e Charlie Kauffman (Adaptação), Gondry dirigiu o cultuado Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança – cujo roteiro foi escrito por Kauffman.

Brilho Eterno é considerado um dos longas mais impressionantes desta década. Nele, graças a técnica empregada por Gondry, observamos o resgate de uma maneira de fazer cinema que caira em desuso; uma espécie de “reexperimentação”, se assim podemos afirmar, do fazer cinematográfico arcaico. Mas, não é sobre Brilho Eterno que trataremos aqui, mas do novo longa de Gondry, A Ciência do Sono.

Em A Ciência, Gondry torna ainda mais intensas as experimentações que conduzira em muitos de seus trabalhos. Fora tal atrativo, somos apresentados ainda a um dos roteiros mais elaborados sensorialmente falando. Gondry brinca com as cores, texturas, tempo e, mais que isso, com nossos sentidos. Não é exagero afirmar que o diretor emprega na composição de seus “quadros” artifícios que conduzem A Ciência do Sono às raias do surreal.

science_02_small.jpg
Cartaz de A Ciência do Sono, novo longa de Michel Gondry

O filme em si parte de uma premissa surrealista ao apresentar um personagem que passeia pelo universo onírico que reside em seu inconsciente e a realidade que a todo custo busca negar. Há uma cena, um instante em que o personagem Stéphane (Gael Garcia Bernal) cavalga um “cavalo dourado de lã”, que representa, antes de qualquer outro aspecto, a necessária fuga do personagem para uma realidade capaz de confortá-lo diante de perda – no caso, da musa Stephanie (Charlotte Gainsbourg). Este é um dos muitos momentos claramente surreais de A Ciência.

Gondry, como explicara certas entrevistas, considera o longa uma representação de muitos de seus sonhos desde a infância. Stéphane é um sonhador; um artista visual que, para dar continuidade ao seu projeto apelidado de “desastrologia”, muda-se para Paris em busca de inspiração. É conduzido, graças aos contatos de sua mãe a um bureau gráfico e passa a trabalhar na composição de tipos. Os colegas de trabalho de Stéphane apresentam-se como personagens igualmente complexos; ora algozes, ora amigos, passam a desempenhar papéis nos dois momentos de realização de Stéphane.

Desperto, o personagem é conduzido por uma infinidade de sensações e eventos que o distanciam de seu objeto de desejo: Stephanie; nos sonhos, luta contra seus “colegas” – as vezes até os controla, quando em sua TV Stéphane – para manter o mínimo de lucidez e chegar ao coração de Stephanie.

O roteiro, por sua vez, e quase toda a ação do longa, é suporte para que Michel Gondry passeie por um sem número de elementos e técnicas de representação cinematográfica que, “graças” a febre tecnológica que tomou conta de boa parte da indústria, praticamente caíram em desuso. Gondry emprega à exaustão chroma-key, stop-motion e planos que possibilitam o emprego de truques de proporcionalidade os quais, combinados, resultam em impressionantes artifícios visuais. Prova disso é a cena em que, para consertar seus “desacertos” com Stephanie, Stéphane, em sua TV Stéphane, passa a reger a destruição e reordenação de seu mundo imaginado. No sonho, como o regente de uma orquestra, o personagem principal reformula o cenário de seu mundo particular. É neste instante que Gondry nos impressiona…

A Ciência do Sono demorará ou, para ser mais objetivo, certamente não chegará às salas de cinema locais. O longa ganhou uma caprichada edição em DVD fora do Brasil. Para os fãs de Gondry, os que gostam da boa matéria do cinema, vale a busca: o diretor definitivamente materializou sonhos. Sejam estes de Gondry ou não…


Trailer de A Ciência do Sono, com Gael Garcia Bernal

2 Comentários para “Gondry Tem a Resposta: Cinema é Sonhar

É Gondry sem Kauffman ou mais criativo do que nunca. O sonho é essencialmente o roteiro, diferentemente de Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembrança. Talvez teu texto tenha sido um tanto confuso para quem não assistiu ao filme. Mas não tem como falar de A Ciencia do Sono sem soar confuso.

Quero assistir novamente.
Uma obra-prima. E a trilha sonora, como sempre, impecável.

Para dar uma bela de uma “viajada” é só acessar: http://www.thescienceofsleep.com

Obra prima visual. Roteiro intrigante e atuações sólidas. Na minha modesta opinião uma evolução ao Brilho Eterno…

Vamos ver o que Gondry nos reservar no proximo filme.

Adoro o zine.

Deixe seu Comentário

16/08/2010

Decadência e redenção de um herói por Miller e Mazzucchelli

Por Alexandre Honório

O que torna uma história em quadrinhos fundamental? Equilíbrio entre trama e traço aliado ao talento por trás deles. É isso que transforma Demolidor: A Queda de Murdock em um clássico do gênero e o coloca entre as principais criações da década de 1980 e dos quadrinhos mundiais. Criada por Frank Miller e ilustrada por [...]

[+] Leia Mais

05/08/2010

O brilho e glamour dos monstros de Palahniuk

Por Alexandre Honório

A primeira cena de Monstros Invisíveis poderia ser descrita como o cruzamento entre Scarface, Carrie – A Estranha e Quatro Casamentos e Um Funeral: uma garota, em um vestido de noiva completamente destruído, empunha no alto de uma escadaria um fuzil enquanto, diante dela, aos pés desta mesma escadaria, enquanto tudo ao redor grita em [...]

[+] Leia Mais

16/06/2010

Um conto assustador sobre um atlante com asas nos pés

Por Alexandre Honório

Namor, o Príncipe Submarino, nunca foi um dos meus personagens favoritos. Qualquer personagem que, submarino, traz asas adornando seus pés é no mínimo um absurdo, não? Correto. Porém, devo morder a língua quando o assunto é Namor: As Profundezas, encadernado com o personagem que está atualmente nas bancas de revistas. A edição caprichada faz jus [...]

[+] Leia Mais
BuscaPé, líder em comparação de preços na América Latina

2007 ® Todos os Direitos Reservados

Todos os textos deste website possuem registro Creative Commons License.

DZ3 Design