Por Alexis Peixoto - 07/12/2006

Certos sujeitos, apesar de toda a sagacidade que aplicam em sua arte, ainda conservam uma boa dose de estupidez e inconseqüência num canto afastado do cérebro. E essa estupidez, em quase 90% dos casos, se aloja com a pior das intenções o que, eventualmente, desemboca num fim trágico e/ou patético. O caso aqui é exatamente esse: a criatura funda uma das maiores bandas de todos os tempos, deita na fama, perde as estribeiras e termina boiando de cara pra baixo numa piscina. Morre Brian Jones, guitarrista e fundador dos Rolling Stones, apagam-se as luzes e a alegria bon-vivant da Swinging London. Fade out.
A história de um sujeito como esse precisa ser contada. Jones não só teve a idéia de montar uma banda que revirasse caveiras seminais como Robert Johnson, Muddy Waters e Sonny Boy Williamson, como também soube dar uma cara própria a essa idéia e mantê-la fresca e crocante ao paladar jovem durante toda a década de 1960. Dono de um espírito inquieto, tão em falta atualmente, Jones tocava guitarra, gaita, bandolim, órgão, cítara e o que mais aparecesse pela frente. Tudo de forma impecável e personal. Sua morte misteriosa marcou o começo do fim da fase áurea dos Stones e emprestou àquele fim de década um gosto amargo de valium com uísque barato.

Sabendo de tudo isso, muitos se encheram de ansiedade quando foi anunciada a produção de Stoned, que recriaria “o mundo selvagem e pervertido de Brian Jones” (palavras da campanha promocional do filme). Desses ansiosos todos, poucos foram os que repararam no nome do diretor: Stephen Wooley. Quem? Wooley é um produtor tarimbado e de relativo bom gosto. Tem seu nome nos créditos de coisas boas como Nó na Garganta e o recente Café da Manhã em Plutão – ambos baseados nos escritos do irlandês Pat McCabe – e em verdadeiras nulidades cinematográficas como o medonho Backbeat, um dos favoritos do canal TNT. Dirigir mesmo, nunca.
Há uma certa coragem em estrear na direção com um projeto desses, é de se admitir. Mas coragem, por si só, não redime ninguém. Wooley supostamente passou 10 anos pesquisando para recriar a trajetória do músico nos trinques, sem deixar brecha pra fã nenhum chiar. Em certo ponto, o diretor deve ter deixado a labuta de lado e ter caído na manguaça, em vista de se aproximar do estilo de vida de Jones. Num porre desses, foi parar numa locadora e saiu de lá com uma cópia de Cazuza debaixo de um braço, e uma de BackBeat debaixo do outro. Já mamado, assistindo esses filmes, Wooley viu a “luz”.
Do mesmo jeito que as pérolas supracitadas, Stoned deixa de lado a recriação obsessiva e responsável para se concentrar no basicão: roupas, cabelos e instrumentos vintage são mais do que suficientes para deixar claro em que época estamos. Indo por aí, um protagonista que oscile entre chapado, esquisito e genial é perfeito, quer tenha um bom ator por trás ou não. Quanto ao roteiro, é fácil até demais – tudo se sustenta sob o tripé sexo, drogas e rock’n’ roll: ou o cara está tocando, ou está chapado e mandando tudo à merda, ou está praticando alguma espécie de modalidade sexual bizarra (importante jogar aqui e ali uma ou outra luz mais fraca em episódios controversos da vida do biografado – romances e amizades conturbadas são uma ótima).
A cereja do bolo, claro, é a trilha sonora. E eis onde Stoned erra justamente onde seus dois filmes irmãos acertaram. Se no filme de Cazuza ao menos rolavam as gravações originais de Barão Vermelho e afins, e em Backbeat havia gente do quilate de Thurston Moore, Dave Grohl e Mike Mills para garantir a qualidade, em Stoned nós temos… uma grande coletânea de supermercado. Triste, para não dizer constrangedor.
E eis que o filme que era para ser sobre uma das cabeças mais interessantes da década de 60, acaba da mesma forma que seu personagem: de bruços, afogado na própria idéia. É algo tão decepcionante e chato que nem mesmo uma teoria conspiratória das mais interessantes consegue tirar a sensação de estômago meio vazio que fica ao subirem os créditos. À Woolley faltou sagacidade, inquietação, personalidade e – por que não? – uma certa dose de estupidez e inconseqüência. Em suma, faltou um pouco de Brian Jones.
Numa avaliação final, 10 para a figura retratada e as boas intenções do projeto; 2 para o filme; média 6. Suficiente para dar vontade de colocar as velhas bolachas dos Stones na agulha, mas passa longe de inspirar uma segunda assistida ou de posar como um documento confiável. Por mais que certas coisas tenha dado certo, qualquer um vê que há algo fora do tom aqui. Não é… Mr. Jones?
Davi Gustavo comentou em 7/12/2006 às 9:05 am
Muito bom esse texto! Vale salientar que Jones já havia deixado a banda ( foi substituído por Mick Taylor) quando morreu em 69! Não sei se foi bem o início do fim… Meus dois albuns favoritos da banda sairam qndo ele já estava fora: “Sticky Fingers” e “Exile on Main Street”! Anyway…
Alexandre Honório comentou em 7/12/2006 às 11:01 am
O certo é que Brian Jones estava com os dias contados como integrante dos Stones. Primeiro, passava mais tempo chapado que tocando – prova disso é Simpathy For The Devil, documentário que mostra a gravação da música.
Jones era limitado; ajudou a construir a imagem musical dos Stones em sua primeira fase, mas limitado.
A trilha desse filme é, no mínimo, meia-boca.
Alex comentou em 7/12/2006 às 12:22 pm
Na verdade, a melhor fase dos Stones, ou seja, o auge sonoro e criativo do grupo são os quatro álbuns após a saída de Jones. Não que a participação dele no grupo não tenha sido importante, mas não tinha o peso, por exemplo, de um Keith Moon. O “núcleo duro” (nesses tempos de Governo Lula o termo está em moda) dos Stones era mesmo Keith e Jagger, e nos quatro discos feitos após a entrada de Mick Taylor eles estavam no auge criativo, em letra e música. A parceria com o produtor Jimmy Miller foi fundamental para que a dupla pudesse explorar todo o potencial blueseiro/roqueiro nessas quatro obras.
Sacanagem, pô. Backbeat é massa.
Alexis comentou em 7/12/2006 às 4:02 pm
Ok, caras, reconheço: esse texto foi meio tendencioso. O negócio é que eu gosto mesmo do Brian Jones. Agora não acho ele limitado não, Norman. Limitação por limitação, o Charlie Watts também tem de sobra e todo mundo sabe que os Stones com outro batera ia ser uma bosta.
É Backbeat… no comments.
E chega, é a ultima vez que escrevo sobre cinema!
See ya
Kenia comentou em 7/12/2006 às 6:04 pm
ok.
Fale de Backbeat, mas não fale de trilha sonora desse filme. Gosto tanto que tenho até o disco. kakakaka
Thurston Moore, Mike Mills e Dave Grohl tocando Beatles?!?! Impecável!
Alexandre Honório comentou em 8/12/2006 às 7:31 am
Olha…
Escuta de novo o Exile On Mais Street e o Sticky Fingers. Comparando com os álbuns anteriores, os dois chegam à estratosfera; “rockão” de primeira.
Uma prova que o cara era limitado foi a insistência dele em continuar ligado às raízes “blueseiras”, enquanto o gênero seguia adiante…
E, pra encerrar, o texto tá massa… a idéia do site é essa, cara.
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