Por Alexandre Honório - 23/05/2007

Em O Cheiro do Ralo vai-se do riso à repugnância em alguns poucos atos. O longa de Heitor Dhalia baseado na obra homônima de Lourenço Mutarelli – e estrelado por Selton Mello – é contundente, incômodo e, talvez sua qualidade menos palpável, risível. Não, O Cheiro do Ralo não é divertido; não é uma comédia e passa longe de quaisquer intenções de sê-lo. Quem afirmar o contrário – mesmo diante da doentia fixação do personagem Lourenço por bundas que não conseguirar traçar – corre o risco de embarcar na caricatura repugnante que Dhalia traça de alguém que, ao explorar degradados e desesperados, flerta de bom grado com o ralo que empresta nome ao filme.
Vejo que Lourenço é Bardamu. O personagem de Viagem ao Fim da Noite, de Louis Ferdinand Céline, tem desprezo pelos que teimam em circular por aí; desprezo pela história dos outros. Bardamu, como Lourenço, flerta com o ralo em um outro nível e os sabores de lá. Renega sua condição? De modo algum: continua sua auto-degradação sem esperar que qualquer redenção possa surgir. É desta maneira que, depois do longa de Dhalia, passamos a encarar Lourenço: alguém que afunda, gosta disso e não está nem um pouco interessado em tentar mudar o fluxo dos eventos.
Os planos amplos, as tiradas escatológicas e a fotografia áspera de O Cheiro do Ralo ajudam no estabelecimento desta descida em direção ao ralo proposta por Dhalia. O diretor negocia as desventuras de seu personagem como alguém que esconde os reais propositos do que oferece. Não considero isto ruim, é bom que fique claro: a melhor surpresa que Dhalia proporciona é o espectador descobrir que o que está à mostra não é simpático; não há humor saindo do ralo. Há, sim, uma constante troca; negócios em que o outro, de uma maneira ou de outra, descobrirá ter perdido algo.
O protagonista é um negociante hábil. Desde cedo aprendeu que não se deve fraquejar: é preciso manter o pulso firme. Lourenço, na verdade, tem pouca ou quase nenhuma relação com os que freqüentam seu estabelecimento. Eles, os que têm algo a vender, o procuram para, quando possível, obter pouco pelo que consideram ainda valioso. Não bastasse lidar com o personagem, o ralo por trás dele ainda fede. Um dos poucos – senão o único – instantes que merecem alguma expressão de riso se dá justamente durante as repetidas vezes em que Lourenço tenta justificar a fedentina que sai do ralo. Isto é quebrado quando um de seus clientes sentencia: “não é o ralo que fede, mas você”…
Ele fede, sim. É desprezível. Não há identificação possível com o personagem senão pelas reações doentias que manifesta contra tudo e todos. O que deseja, compra. “Por que ter história quando podemos comprá-la ‘baratinho’ de algum pé rapado louco por alguns trocados e que não tem onde cair morto?”, diria Lourenço, sem nenhum pudor. Não há mercadoria que não possa ser comprada, deixa claro. Peitos, bundas, sexo, tudo é “comprável”…
Outro traço entre Lourenço de Mutarelli e o Bardamu de Céline reside justamente neste repetido despudor pela desumanidade. A condição humana pouco importa e, bem, quase ninguém se importa. Fiquei impressionado com a reação de muitos espectadores que também assistiram a mesma sessão que assisti: alguns riam; outros gargalhavam; o que estava na tela, por sua vez, não pedia por isso. Em determinado momento de Viagem ao Fim da Noite, Bardamu desabafa que na medida em que permanecemos reféns de uma mesma condição, as coisas e pessoas perdem a compostura: “apodrecem e começam a feder de propósito só pra você”.
Humor negro uma ova: O Cheiro do Ralo é um soco no estômago. Porém, se mesmo depois de receber o golpe o riso escapa, como Lourenço, está na hora de encontrar um outro olho; uma outra história… a sua está com o prazo vencido e debruçar-se para inspirar-se no ralo não resolve.
Kenia Castro comentou em 24/5/2007 às 4:59 am
Eu acho que filme tem sim suas pitadas de humor negro para quebrar toda a tensão gerada por determinadas cenas. Depende do espectador rir ou não delas. E na maioria das vezes não é engraçado e sim doentio.
Existe o flerte do diretor com aquilo que é pretensamente risível. Você ri e minutos depois sente repulsa pelo teu ato.
A atuação de Selton Mello é impecável, até certo ponto. O “esteriótipo do riso” devido a suas inúmeras participações Globais parece que deixou marcas em todos os personagens que ele interpreta. Só pelo tom de voz, você já começa a associá-lo a outras atuações. É inevitável. E uma pena.
Com um baixíssimo orçamento Heitor Dhalia mostrou que é possivel com muita criatividade fazer um bom filme.
Aristeu comentou em 24/5/2007 às 11:16 am
Pó Honório, a tua análise tá muito boa. Esse paralelo com o texto de Céline é uma sacada interessante. Discordo de algo, no entanto:
O Lourenço procura uma saída para aquilo, sim. Na forma mais doentia que pode fazê-lo, montando o seu pai Frankenstein, comprando a bunda, cheirando o ralo. São os caminhos que ele conhece.
Notou que ninguém aparece ali para comprar nada dele? Ele diz que vende as coisas, mas o filme não mostra isso. Mostra um depósito enorme, com todas aquelas quinquilharias amontoadas. Quero chegar no seguinte ponto: parece que o que o personagem mais deseja é o outro. Então ele compra. Ele só compra. Ele nem dá, nem vende.
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