Cinemascópio

Densidade, teu nome é Glória Perez

Por Tiago Lopes - 28/02/2009

Escalar um ator para interpretar um papel feito usualmente por ele; fazer surgir trilha sonora incidental ao se ouvir palavras chaves; duas ou mais pessoas expressando opiniões divergentes dentro de um ambiente fechado, com o intuito de criar uma tensão mais “palpável”. Tudo isso, se usado por um único filme, consiste no uso de uma fórmula.

A mesma que os defensores de O Leitor se negam a enxergar, insistindo em dizer que o filme não segue fórmulas e, por isso, é “sensível, denso e bem-estruturado”. A fórmula que o filme do Stephen Daldry segue à risca já foi usada e abusada, inclusive, pelos dois defuntos que produziram seu último exemplo de algo tão formulaico em Hollywood quanto filme de terror que estréia em dia de halloween: Anthony Minghella e Sidney Pollock fizeram filmes ridiculamente premiados e todos já devidamente esquecidos. Não é que o que resultou da batida fórmula usada por Daldry seja de todo ruim, mas os elogios exagerados feitos por parte de quem assiste O Leitor obrigam os de opinião contrária a serem radicais e focarem em cima de seus numerosos erros com uma fúria minimamente mal-educada.

Porque O Leitor está longe de ser uma unanimidade. Mais por causa de toda a atenção que ele vem recebendo, tem gente de opinião muito válida elegendo 2008 como um dos piores anos para o cinema da década. Isso era de se esperar, já que 2007 elevou-o a um padrão que nem os mais pessimistas deixaram de reconhecer. Só para exemplificar: Desejo e Reparação, devido à sua pompa e data de lançamento, era o único dos indicados a melhor filme do ano passado claramente promovido para se beneficiar mais das óbvias indicações que iria receber do que pela sua real qualidade. Nenhum dos indicados a melhor filme desse ano consegue chegar perto da qualidade deste, avalie a distância que estão então de filmes como Onde os Fracos Não Têm Vez e Sangue Negro.

O Leitor, como um todo, é um filme ruim. Em grande parte, chega a ser ridículo. E, somente no primeiro ato, consegui assisti-lo sem reclamar, mas mais pela empatia à situação do garoto do que pelo drama em si. A escalação de Ralph Fiennes para interpretar um homem burocrático-sedutor-introspectivo já depõe de cara contra o interesse que esse personagem possa causar. Ralph Fiennes sempre interpreta esse tipo, note que não há uma variação sequer no figurino dos três últimos personagens de destaque que fez no cinema (Fim de Caso, Spider (também era um louco, além das três características citadas) e Jardineiro Fiel).

A história é bem boa (se você conseguir controlar o desejo de evocar a memória do Telecurso 2000), mas duvido que, por exemplo, os personagens dos estudantes sejam tão caricatos no livro como foram no cinema. O momento em que decidi que O Leitor era o maior pega-besta da temporada foi numa das reuniões dos discentes, pouco depois da segunda sessão do julgamento, quando a opinião – em favor da ré – do garoto é confrontada com a opinião reacionária de outro. Enquanto discutem, os outros 4 figurantes fingem uma tensão tão tacanha, que a única coisa que podia piorar o que já era muito ruim era se um desses figurantes tomasse a atitude de sair da sala fazendo cara de humberto martins por não suportar a “tensão palpável”. E pelamordedeus, reuniões de estudantes com um pró, outro contra e os indecisos que não suportam a “tensão palpável” e fazem cara de humberto martins para fugir da mesma não são mais novidade desde que Dawson’s Creek nos ensinou a encarar a vida de frente.

Além disso, há o terrível problema da trilha sonora. Perceba que ela é disparada sempre que as palavras “lembrança”, “judeu”, “holocausto” e “crueldade” são pronunciadas e alguém ameaça um choro. Há até o close expreme-lágrima, o zoom da câmera servindo de beliscão: quanto mais próximo da cara, maior a vontade de chorar. Sem contar na total ausência de sentido para as longas sequências sem diálogo, que nem são bonitas (como as de As Horas), nem servem de propósito algum para o andamento do roteiro. Talvez seja para mostrar o trabalho da cenografia. Em todos os seus filmes, sempre há uma longa sequência sem diálogos que foca mais nos cenários do que nos próprios personagens. Deve estar propagandeando os objetos de algum leilão que deve ocorrer sempre depois das filmagens: “quarto estilo Auschwitz: US$ 100,00″. Até gosto dessas sequências, mais pela vontade que me dá de possuir uma estante de madeira dos anos 50.

Kate Winslet: ok. Um ok desta mulher é melhor de que o de muitas escoladas em teste do sofá que tem por aí. Ela é a única razão para se manter um mínimo interesse nesse filme, até o absurdo do momento em que está maquiada de Velha Surda. “Oi. Lembra de mim? A voz continua a mesma, mas os cabelos e o sex appeal: quaaaaaanta diferença”. Geralmente, não reclamo desses detalhes, mas o fato do David Fincher ter feito a Cate Blanchett falar como uma senhora de 80 anos fez com que esse detalhe deixasse de ser um detalhe.

Enfim, ridículo. Se os três filmes do Daldry conseguiram ser indicados a todos os prêmios possíveis, é porque ele aplicou a mesma fórmula a todos eles. Nem Minghella, nem Pollock se mantiveram por tanto tempo na ativa sendo tão insuportavelmente formulaicos. Em algum momento, eles se arriscaram em outros formatos que não o que certamente lhes garantiriam entradas vips em premiações pro resto da vida (O Talentoso Ripley, por exemplo: acho o melhor filme do Minghella justamente por não possuir um traço sequer dos cacoetes presentes em suas crias famosas). O próximo projeto do Daldry, uma adaptação do livro (pois sim) As Incríveis Aventuras de Kavalier & Clay pode vir a ser essa boa exceção na sua filmografia. Nesse livro do Michael Chabon, há humor o suficiente para distanciá-lo dos temas favoritos do Daldry, e o roteiro ficará a cargo do próprio Chabon. Há de ser um senhor muito chato para conseguir estragar até um roteiro do Michael Chabon.

Um Comentário para “Densidade, teu nome é Glória Perez

Se identificou com “a situação do garoto”… sei. Isso quer dizer que o quê? Que você quer comer a Kate Winslet ou uma ex-nazista? Ou os dois?

Enfim, no mais sou obrigado a concordar com você. Mas nem achei um filme tão ruim de assistir não. Benjamim Button me faz passar vergonhas maiores (Cate Blanchett como farrapo humano incluso).

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