Por Aristeu Araújo - 20/02/2007

Quando Amores Brutos estreou no Brasil, Alejandro Iñarritu estava apenas começando sua carreira internacional. Após seis anos e mais dois longas, agora o seu nome é uma assinatura. Uma assinatura tão forte que permitia prever o que Babel, seu novo filme, traria para as salas de cinema: um emaranhado de histórias que se chocam umas às outras, fragmentadas, sem ordem cronológica; tragédias e respectivas dores, muitas dores.
Iñarritu alcançou algo muito complicado para os nossos dias de blogs, fotologs, youtubes… conseguiu imprimir uma marca, deixar claro do que trata sua assinatura. Diante de toda hiperprodução de informações, do surgimento de tantos gênios efêmeros, da magnitude do descartável, Iñarritu conseguiu estabelecer seu nome. Por outro lado, toda a necessidade de arrebatamento tão típica do mundo contemporâneo – essa busca pela catarse em cada byte de e-mail, em cada nova obra de arte ou publicidade – trabalha contra ele.
É necessário uma análise com alteridade: o tão diagnosticado caos contemporâneo, a aceleração das pessoas e suas pressas, a internet e o mundo de informações e entretenimento que estão disponíveis aos mais brandos cliques, causam esse estranhamento nas coisas que não mudam. Babel é o que já sabíamos que seria. Mas há um problema real nisso? É verdadeiramente depreciativo reconhecer em um autor o seu estilo? O certo é que essa pós-modernidade é tão estranha, que cobra a reinvenção de autores que têm como marca as constantes mudanças de estilo. É o caso de diretores como Quentin Tarantino ou Steven Soderbergh, com seus filmes híbridos, mutáveis.
Muito embora a forma do filme já fosse previsível, Iñarritu conseguiu harmonizar de tal forma a não cronologia, com tanta maestria, que é surpreendente ao olho atento acompanhar o desenrolar da fita. Aliás, não há espectador passivo nas platéias de seus filmes. O paradigma do espectador semi-adormecido – imerso na ilusão do cinema clássico-narrativo, aberto a um mundo fílmico sólido, sem brechas para esse despertar – é completamente negado pelo cinema de Iñarritu. Seus filmes obrigam que a platéia esteja atenta, refazendo em seus pensamentos uma segunda montagem que permita, assim, a compreensão linear da obra. E é assim desde Amores Brutos.
Amores Brutos, no entanto, foi uma experiência mais linear. O filme se subdividia em outras histórias a partir de um acidente e mantinha alguma coerência com a forma escolhida para o filme. Já em 21 Gramas, segundo filme do diretor, houve uma radicalização no experimento, quando Iñarritu fragmentou cronologicamente e geograficamente o filme a ponto de muitos espectadores saírem das salas sem terem compreendido bem o que havia assistido. O mais irônico é que em 21 Gramas, é apenas esse jogo de montagem que é responsável por algo peculiar no filme. Se fosse editado de forma linear, o que veríamos seria um melodrama típico.
O termo melodrama (ou pelo menos algo desse conceito) é essencial para o entendimento do cinema de Alejandro Iñarritu. Isso porque ao que seus filmes indicam, o diretor acredita na dor/tragédia como um caminho para a redenção. Babel é constituído de quatro núcleos e neles, em cada um deles, há sofrimentos profundos. Em linhas gerais, o melodrama define uma narrativa calcada no sofrimento e na impossibilidade de fuga desse sentimento. Em seu cinema, os personagens parecem sofrer para poder entender qual é seu papel no mundo. E é isso que acontece nos quatro núcleos de Babel.
São quatro histórias, cada uma contada em uma língua diferente. Assim como em seus filmes anteriores, Iñarritu utiliza coincidências para uni-las. Estados Unidos, México, Marrocos e Japão foram os cenários escolhidos para construir essa Babel. E o que une essas geografias é um rifle. É como se o filme, na verdade, estivesse contando a história desse rifle. Mais profundamente, entretanto, vê-se que o mote do filme não é simplesmente a dor que une essas histórias, e sim a intolerância que está presente nas fronteiras, entre os povos de um mundo globalizado.
Alexandre Honório comentou em 20/2/2007 às 4:16 pm
Gostei do texto, cara. É realmente engraçado isso: a necessidade que alguns têm de arrebatamento. Gosto dos três de Iñarritu e, talvez você não entenda, mais de Amores Brutos que dos dois seguintes: acho que lá existe um vigor e crueza impressionantes.
No mais, esta tal “pós-modernidade” realmente cobra alguns posicionamentos engraçados.
Grande texto, cara…
Laine Milan comentou em 21/2/2007 às 10:47 am
O que mais me cahama atenção em Babel é justamente o jogo de poder: e se os mexicanos fossem americanos, seriam tratados dessa forma, na fronteira entre os dois países? E se no Japão, as necessidades fossem mais básicas, primitivas, a carência afetiva teria tal proporção na vida dessa jovem? E se, em vez do Marrocos, o tiro tivesse acontecido na periferia de Chicago, haveria a suspeita de terrorismo? Babel denuncia, com maestria, o que já sabemos: a globalização aprofunda cada vez mais nossas diferenças e a intolerância.
Viktor Vidal comentou em 21/2/2007 às 4:01 pm
Belíssima análise a de Laine Milan. De qualquer forma, não gostei do filme.
O Aristeu contextualizou muito bem a carreira de Iñarritu. Gostei!
Lex comentou em 22/2/2007 às 7:39 am
Reparei que, para analisar o filme, você sequer precisou citar o nome das personagens, ou mesmo apresentar pormenores da sinopse. Não sei se foi intencional, mas para um texto tão curto, parece que sim. O importante é que diz muito da obra de Iñarritu: não importa o que conta a história, você não vai entender mesmo.
Desculpe. Agora falando sério. O que me deixa puto (e não sei se isso é ruim) com os filmes de Iñarritu é que, como você observou, ele rouba dos espectadores o direito a catarse fílmica, obrigando-o a uma contínua reconstrução narrativa. No plano ficcional, entretanto, quem está passando por um doloroso ritual de transformação são os personagens. Ao final, após muito exercício, até é possível depreender o fio condutor desse rosário de dores que forma o mundo. Mas, é inútil.
Aristeu comentou em 22/2/2007 às 2:51 pm
Lex, eu não me preocupei muito em falar sobre o enredo porque o Alexandre já tinha feito isso aqui no Disruptores (eis o texto dele: http://www.disruptores.com.br/?p=150). Quanto à catarse, eu acho que ela está lá. Só não está tão amostra, tão fácil como no cinema clássico.
yuri comentou em 27/2/2007 às 1:43 pm
Estilo autoral, narrativa fragmentada, catarse, cobrança pela reinvenção do estilo… só mesmo um grande diretor para, através de sua obra, levantar discussões que dizem respeito ao cinema enquanto arte, enquanto estética. E o seu olhar sobre a obra captou isso, Ari. Legal, bem legal.
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