Por Alexandre Honório - 23/07/2008

Começo com uma afirmação que para muitos pode parecer redundante e datada, mas, com Batman – O Cavaleiro das Trevas, observamos um personagem vindo dos quadrinhos ganhar uma transposição para o cinema realmente digna de sua complexidade. Entretanto, não me refiro ao herói do longa, mas ao vilão: o Coringa. Apesar de nossos esforços em dar alguma atenção a “quem salvará Gotham City”, é sobre o opositor que nos pegamos apreciando – sem culpa alguma, claro.
É o Coringa quem rouba a cena durante as duas horas e meia de exibição do filme; não é o Batman que queremos, mas a encarnação de seu nemesis; todos os maneirismos e trejeitos possíveis de um vilão, incorporado por um ator de talento inegável: Heath Ledger empresta ao Coringa a substância que poucos diretores sequer conseguiram enxergar; redime o personagem de seu passado caricato e de afetação descontrolada; coloca-o nos trilhos – se isso foi possível, claro.
Como na graphic novel A Piada Mortal, de Alan Moore, em Batman – O Cavaleiro das Trevas somos como que compelidos a apreciar a insanidade enquanto contraponto à correção de princípios: Batman e Coringa como duas forças que aparentemente se colocam em confronto, mas, incapazes de anular uma a outra, continuam em um embate.
Este é a meu ver o principal atrativo do longa: o embate entre dois personagens igualmente sombrios, mas que se colocam como representantes de forças opostas e extremas. O filme demonstra isso na tela repetidas vezes – sendo o confronto nas ruas de Gotham City seu lance mais evidente.
O grande mérito de Ledger, desta forma – graças à direção igualmente impecável de Christopher Nolan -, foi encontrar na insanidade do Coringa um lapso de sentido explorável: encarnar o caos interior que o vilão carrega em si; encarnar seu niilismo e recusa; evidenciar seu desprezo pelo “real”. Do assalto ao banco que abre o filme até sua conclusão, Batman é provocado a provar do caos que aparentemente rege seu oponente.
Nos quadrinhos o personagem apresenta, a meu ver, contornos nítidos de tal perspectiva com Asilo Arkham, de Grant Morrison. É nesta série que, pelo menos aparentemente, os dois personagens finalmente apresentam-se como faces de uma mesma moeda; o claro desenvolvimento de uma premissa inicial de Moore: Batman e Coringa em uma eterna disputa sobre a qual, sabem, não haverá vencedor em momento algum.
Em Batman – O Cavaleiro das Trevas não há mais o Batman, mas um encontro de forças: uma atendendo o convite da outra e vice-versa em movimentos que se repetem, mas que não deixam de ter sentido. É nesse aspecto que reside o mérito de Nolan por um filme que, mais que reescrever a história cinematográfica de um personagem, redime sua existência: a construção de uma história que nos mobiliza os sentidos; que nos paralisa em êxtase.
Batman – O Caveleiro das Trevas é, a meu ver, um filme que ficará marcado como um divisor; uma produção que aponta perspectivas interessantes para este diálogo entre cinema, arte seqüencial e seus principais e mais caros ícones.
Hugo Morais comentou em 31/7/2008 às 7:36 am
E agora? Quem poderá nos defender? E como será feito um terceiro filme se esse é O Definitivo. Se Noolan se superar, pode parar de fazer filmes.
Breno Machado comentou em 17/8/2008 às 7:33 pm
A dualidade de um Batman clean e hi-tech com um Coringa sujo e old school é genial por fugir do maniqueísmo clássico hollywoodiano. Para ficar ainda mais impressionado com essa relação doentia, eu recomendo “A Piada Mortal”, de Alan Moore e Brian Bolland. O final é lindo de tão doentio.
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