Cinemascópio

Conceição – Autor bom é autor morto

Por Aristeu Araújo - 31/07/2007

Foram necessários dez anos para que cinco alunos (hoje ex-alunos) de cinema da Universidade Federal Fluminense (UFF) conseguissem realizar, finalizar e exibir o filme Conceição – Autor bom é autor morto. Com uma produção precária, os realizadores ousaram sonhar alto e produziram o que até então era visto como impensável. Conseguiram.

Após muito penar, Conceição cooptou a parceria da Riofilmes, que assumiu a distribuição deste que é o primeiro longa-metragem de ficção feito em um curso de cinema. Sua carreira começa de forma modesta, sendo exibido primeiramente no Rio de Janeiro, Niterói e em São Paulo. Nas três cidades, o filme está presente em apenas uma sala de exibição.

Na sua pré-estréia no Rio de Janeiro, Conceição lotou o cinema Odeon, com seus 600 lugares. Arrancou da platéia palmas e urros de empolgação. Ok, o público era formado basicamente por amigos, parentes e alunos da UFF. Era, portanto, um público pré-disposto e receptível. Já na última edição do festival Cine Esquema Novo, realizado em Porto Alegre, o longa-metragem levou o prêmio do júri popular.

Mas pelo o que tudo indica, Conceição terá uma estada breve nas salas de cinema. Não que o filme seja ruim, pelo contrário. Diferente do que muitos esperavam, Conceição é digno de estar nas salas de cinema. Diferente, inclusive, do que o jornal O Globo acha, com seu bonequinho cochilando. O problema é que o longa-metragem é um alienígena frente aos seus pares do cinema nacional.

O filme de André Sampaio, Cynthia Sims, Daniel Caetano, Guilherme Sarmiento e Samantha Ribeiro nega algumas das principais características do cinema brasileiro pós-retomada: a verossimilhança, o naturalismo e um certo “padrão de qualidade televisivo” que permeia muitas das produções nacionais recentes. Conceição é trash, experimental, irregular. E essas características são o que há de melhor no filme.

Sendo uma obra coletiva, Conceição não é apenas um, mas também muitos filmes. Há nele uma polifonia que às vezes soa radical, às vezes soa confusa. Mas em momento algum desinteressante. Conceição é cinema em extremo. O filme se valida fortemente da metalinguagem e carrega em seus genes uma boa porção do cinema marginal.

Em seu enredo, diretores bebem em uma mesa de bar enquanto elocubram sobre os filmes que pretendem realizar. Os filmes imaginados são apresentados à platéia enquanto eles bebem mais e mais cerveja. São histórias algumas vezes metafísicas, outras poéticas, em geral permeadas por humor negro. Tem a história do personagem que foge desesperadamente de seu algoz (o perseguidor é interpretado pelo cantor Jards Macalé). Há também a história do cara que vende fezes, do cara que tem seu pênis decepado, entre outras bizarrices. Intercalando, há um documentário poético sobre o filme que anônimos gostariam de filmar. Conceição é o filme que esses autores sonharam fazer.

O que ainda não foi dito aqui é que Conceição, além de tudo, é livre, anárquico. Independente da carreira que o filme tiver nos cinemas, Conceição entra automaticamente no panteão dos filmes cults, dos filmes utilizados como referência quando outros jovens realizadores estiverem discutindo seus respectivos projetos em outras mesas de bar.

[youtube:http://br.youtube.com/watch?v=ettjrWQ4zSs]

12 Comentários para “Conceição – Autor bom é autor morto

Taí, Aristeu, gostei do trailer. O filme parece interessante… Concordo com você quando diz que o cinema brasileiro “parece feito para passar na TV”.
É justamente por isso que sinto, em figuras como Cláudio Assis e outros “marginais”, um cinema “melhor”…
Ótima análise…

gabriel comentou em 31/7/2007 às 1:28 pm

Hehe, fiquei curiosíssimo pra ver o filme. Mas como? Tem pra baixar? Arrumas aquela cópia? ;) abraços!!

gabriel comentou em 31/7/2007 às 1:31 pm

E acho q o cinema brasileiro já poderia ter muito mais filmes mais “crus” e “doidos” que a estética habitual!!

O filme tá NO CINEMA, meu filho! Vá ver enquanto é tempo!
(Se estiver em Sampa ou Rio, claro.)

Tiago Lopes comentou em 1/8/2007 às 8:02 am

Até pagaria pra ver esse filme, mas como está sendo exibido em um número mínimo (mas mínimo mesmo) de salas, creio eu que não será possível pagar pra ver. E acho até meio difícil imaginar se o filme será lançado em outros suportes, como em dvd, por exemplo. É esperar pra ver se alguém vai disponibilizar em p2p.

Os realizadores podiam tentar uma vaguinha no nosso digníssimo FestNatal. Tô ansioso pra ver a cena do cigarro, que a resenha da Ilustrada citou (por sinal, gostaram do filme).

Aristeu comentou em 1/8/2007 às 9:31 am

Fernando, o Gabriel que escreveu acima é de Natal. O filme não está lá e, provavelmente, nem chegará por aquelas bandas. Eis o estado da arte. Eis o retrato da distribuição do cinema nacional.

gabriel comentou em 1/8/2007 às 10:43 am

O problema é que moro em Plutão. Então tenho de recorrer ao download mesmo.

Aristeu comentou em 1/8/2007 às 10:48 am

A sequência do cigarro é interessantíssima. Ao apagar das luzes, temos alguns minutos de escuro e conversas, intercalado com as tragadas em cigarro, o que faz surgir uma luzinha avermelhada no rosto dos atores. Virtuoso!

Érica comentou em 2/11/2007 às 5:13 pm

Conceição infelizmente vai pra gaveta. Mas, olhando o lado positivo da questão (com muuuuuuito esforço), pode ser sinal de que novos tempos estão por vir.

Como assim pra gaveta, Érica?

Só para adicionar uma informação, Conceição vai ser exibido no Cine Cuca, projeto de cinema da UNE, na UFRN no final desse mês.

Amaro Salgado comentou em 4/9/2008 às 4:47 pm

A questão é: há pessoas de sensibilidade que não têm um pingo de talento e há pessoas de talento sem nadinha de sensibilidade. A idéia do filme parece bacana e alguém ali leu a Noite na Taverna, do bom autor morto Álvares de Azevedo. O cinema nacional acerta aqui e acolá e quando erra é de lascar os canos. Conceição é interessante. Só isso. Interessante que os estudantes sonhadores tenham realizado um sonho, interessante que o filme plagie o bem morto Álvares, interessante o lance do “que filme você gostaria de fazer?”, interessante o sósia do Waldick Soriano etc. Mas convenhamos filme bom, sensível, inteligente, imperdível é demais! É claro que o Quentin Tarantino iria se morder de inveja se assistisse ao filme, afinal ele é atualmente quem melhor sabe fazer cinema B. Opa! Estou dando a entender que eu não gostei do que vi do filme. Espere: o que vi é muito ruim, o que pensei é que é bom. E o que pensei? Há pessoas de sensibilidade sem um pingo de talento e há pessoas de talento sem nadinha de sensibilidade, junte um bocado delas e sai qualquer porcaria pra chamar a atenção de todo besta.

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