Por Tiago Lopes - 19/01/2007

O livro do Apocalipse, filmado na íntegra, não seria tão assustador quanto o fim do mundo apresentado por Filhos da Esperança. Pensando melhor, as Revelações não iriam passar de um enredo de escola de samba, com cores espalhafatosas e uns personagens caricatos demais, se comparado a um fim que chegará porque todas as mulheres, inexplicavelmente, ficaram estéreis.
Partindo dessa premissa, Alfonso Cuáron desenvolve um filme que abarca todos os gêneros cinematográficos para acompanhar a vida de Theo(Clive Owen) na Londres de 2027, único lugar do mundo onde o caos ainda não se instalou por completo, segundo as suas próprias redes de notícias. Em mais um dia de trabalho, ele acompanha por todos os canais de TV reportagens sobre a morte do mais jovem ser humano da Terra que, aos 18 anos, foi esfaqueado por um fã insatisfeito com a atenção que recebeu. As ruas em que anda diariamente estão infestadas de cercos para imigrantes, tratados como terroristas pelo governo londrino e enjaulados como judeus em campos de concentração.
A contraparte do sistema é um grupo de rebeldes chamado Peixes, que convence Theo a usar suas ligações com os altos poderes britânicos e conseguir um visto de saída para Kee, uma jovem negra, pobre, imigrante e grávida, que deve ser levada para o litoral e se encontrar com o Projeto Humano, um suposto grupo de cientistas ainda interessado na sobrevivência da humanidade.
A banalização da violência que se vê no filme, enquanto Theo e Kee correm pra chegar a tempo num lugar que nem eles acreditam existir, faz com que os dias de hoje soem como os mais conscientes da história da humanidade. Por onde passam, explosões acontecem como se balas de festim fossem disparadas, uma pra cada pessoa no meio da rua. Pode parecer pesado, mas o filme é carregado de um alívio cômico que, nos primeiros momentos, são constrangedores demais diante do que se vê, mas depois funcionam como uma aspirina. Mesmo nos momentos mais piegas não há porque achar que você está diante de um drama Manoel Carlos, é só mais uma piada, e das melhores.
A crescente sujeira no meio das ruas londrinas e o cinza da fotografia lembram um Blade Runner mais realista, mas sem os exageros sempre imaginados em filmes futuristas. Cuarón tratou de deixar tudo ainda mais difícil e genial quando resolveu filmar seqüências que sempre exigiram inúmeros cortes, como cenas de batalha, em um só take. A última possui mais de 15 minutos, longos, claustrofóbicos e nervosos, sendo dissipados por uma final que, pode ou não, ser apenas mais uma pegadinha.
Aristeu comentou em 19/1/2007 às 8:39 am
Este filme é bem intrigante. Bem lembrada a tua citação sobre os planos sequências em cenas de batalha. Quando assistia a isso fiquei pensando em como um diretor precisa de coragem para fazer uma escolha dessa.
Mas Filhos da Esperança parece-me que fica no meio do caminho. Ele revisita Blade Runner e não acrescenta muito além do que já foi filmado sob o sub gênero da distopia. Saí do cinema com uma sensação de que já tinha visto algo daquilo, talvez melhor, principalmente se colocasse esse filme ao lado de Extermínio, dirigido por Danny Boyle. Nele, com bem menos dinheiro o cara conseguiu criar sensações realmente aterradoras, num estilo até mais particular.
Outro grande problema de Filhos da Esperança é que a estrutura de roteiro trabalha sobre paradigmas clássicos, sobre o mito do herói. Bem, eu estou farto de heróis, bem mais ainda desses que são pessoas comuns, que num impulso de civismo transformam-se em guerreiros, em mártires. Há uns 100 anos o cinema fala deles. É só assistir Spielberg para ver isso na mais elementar forma.
No mais, “Alfonso Cuáron desenvolve um filme que abarca todos os gêneros cinematográficos” é um pouco além da conta.
Grande abraço.
Lex comentou em 19/1/2007 às 10:51 am
Tem números musicais?
gabriel comentou em 23/1/2007 às 11:24 am
Nunca tinha pensado nesse tema, parece intressante. Fiquei curioso. abs
Ludymylla comentou em 23/1/2007 às 8:19 pm
não vi e não gostei.
ps: pelo menos tem o Clive Owen. =D
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