Cinemascópio

Babel ou Como Sucumbimos ao Silêncio

Por Alexandre Honório - 26/01/2007

babel_01.jpg

Foi entre o Eufrates e o Tigre que uma grande torre surgiu. Deus, ofendido pelos que regozijavam-se pela empreitada, determinou então que o povo que edificava aquela torre que pretendia tocar os céus – e que até então falava uma língua comum – não mais se entenderia; o silêncio os separaria. Ele, pelo desentendimento com seu povo, derrubaria todos os tijolos daquele então magnífico empreendimento.

A torre, Babel, símbolo do engenho humano, fora destruída. Em linhas gerais – talvez não tão gerais assim – Babel, terceiro e último filme da trilogia iniciada pelo cineasta Alejandro Iñarritu, fala sobre esta distância que nos separa e cerca nesta Babilônia Global. Não somente sobre a ignorância, mas talvez mais ainda sobre este inexorável silêncio.

babel_02.jpg
Cartaz deBabel, longa de Alejandro Iñarritu, em cartaz nos cinemas brasileiros

É também o silêncio o tecido que separa e distancia todos os personagens do longa – embora conectados por eventos absurdamente humanos, mas irremediáveis; por atos que perfuram o espírito humano. Quando Susan (Cate Blanchett) é baleada durante uma visita ao Marrocos, existe uma barreira entre ela e Richard (Brad Pitt); um muro de ressentimento e silêncio. “Babel”, em linhas gerais, costura uma teia em torno da maneira como cada um dos personagens lidam com tais barreiras.

Chieko (Rinko Kikuchi), uma jovem japonesa surda-muda, desespera-se por não conseguir fazer-se sentir; fazer com que o outro sinta-a. Sua relação com o pai não foi destroçada somente pela “distância” que os separa, mas pelo “silêncio” existente entre eles. Chieko sente-se invisível para os que estão ao seu redor e isto transforma-se em tortura. Talvez por isso, entendendo as distâncias que separam-na dos demais ao seu redor, Chieko é o retrato da trama e provalmente seu personagem mais marcante.

O longa inicia apresentando Hassan e Abdullah. O primeiro vem oferecer ao segundo a solução para garantir a segurança de suas cabras: um rifle que ganhara de presente de um empresário estrangeiro – uma das muitas conexões do longa. É este “presente” que estabelecerá a junção/mote entre todos os personagens envolvidos pela cadeia de eventos chamada Babel.

Susan, Richard, Chieko, Abdullah e Amélia são atingidos e entrelaçados por um único projétil. Com Amélia (Adriana Barraza) somos apresentados ao silêncio que separa dois povos que cresceram juntos, mas que ora não se entendem – o mais forte não quer ouvir o mais fraco. “Minha mãe disse que o México é um lugar muito perigoso”, afirma o pequeno Mike (Nathan Gamble), filho de Susan e Richard, enquanto viaja junto a irmã e Amélia para uma festa em Tijuana; “é mesmo; está cheio de mexicanos”, destila Santiago (Gael-Garcia Bernal) – um dos “vilões” de Babel. Amélia e as crianças vivenciam um dos momentos mais angustiantes da trama…

Iñarritu mais uma vez – e desta de modo mais impactante que as anteriores – nos apresenta uma narrativa única; singular em toda a sua constituição e por sua natureza. Todos os personagens estão conectados; falam a mesma língua: o silêncio. Somente quando este se torna insuportável, conseguem exprimir o que guardam dentro de si.

Não foi um ato divino que transformou as relações entre estas pessoas, mas o entendimento de que elas aparentemente não existiriam. O engenho humano mostra-se ineficaz ao lidar com as relações entre indivíduos que, aparentemente, não querem superar sua separação.

A forma crua como Iñarritu nos apresenta o enredo que envolve estes personagens, a fotografia bela e uma concorrente sobreposição de eventos nos toma de assalto. Babel, Babilônia… aquela torre-zigurate construída para tocar os céus foi esquecida. O silêncio que se formou em torno dela, segundo o longa de Iñarritu, continua ensurdecedor até nossos dias.

6 Comentários para “Babel ou Como Sucumbimos ao Silêncio

O filme do ano, desde já. Inarritu sabe explorar com maestria as angústias humanas.
Quanto a crítica, adorei. Fazia tempo que tuas critícas não me tocavam tanto quanto essa. Parabéns, ótimo texto.

Lex comentou em 26/1/2007 às 2:55 pm

O argumento do texto é interessante mas parte de uma premissa falsa. Deus não condenou os operários da Torre ao silêncio, mas à confusão, pois cada um deles passou a falar numa língua distinta. Assim, muito mais que o silêncio, o que se ressalta é uma impossibilidade de comunicação – essa, sim, angustiante e que já foi trabalhada com maestria no cinema por Antonioni. A questão, talvez, seja “o que dizer?”

augustolula comentou em 29/1/2007 às 11:35 am

O silencio que ninguém ouviu na primeira guerra que existiu.

O tema do filme, como bem frisou Alex, é a confusão e falta de comunicação, não o silêncio. Até porque todos os personagens têm algo a dizer a comunicar, mas não conseguem.
O filme é bom sim, mas não é a oitava maravilha do mundo não. Espero que 2007 traga coisas ainda melhores. Porque, pelo menos pra mim, há algo de muito errado no ar quando o filme do ano vem no começo do mesmo.

Caras, o silêncio ao qual me refiro não é a impossibilidade de comunicação, de falar algo, mas a dificuldade de interação – compreender o outro, na verdade – e isto é bem claro no filme.
Foi este o silêncio que surgiu quando o criador fez com que as tribos que erguiam a Torre caissem no mundo; uma barreira separando e afastando pares…

Luanne comentou em 24/2/2007 às 9:03 am

Isso, reiterando, nao existe um silencio no filme, muito pelo contrario. Existe a falta de comunicacao, a surdez generalizada que tanta especificidade, tanta divisao no mundo, tanto “tribalismo” seja do punk ou do terrorista ou do americano fez surgir: uma nao compreensao, ou uma falta de vontade de compreensao do outro. Parece que a especificidade, as diferencas, que se permite no mundo contemporaneo fez ao seu reves surgir uma intolerancia com a diferencia. Ou a tolerancia da diferenca com uma impressao de que se pertencem a mundos diferentes, incomunicaveis. Isso cria um abismo entre “eu” e o “outro” da incompreensao, do silencio, do nao interesse e assim, do preconceito. A nocao de que somos todos seres humanos vira um cliche romantico, que inexiste na pratica. Ao retratar “tribos” tao distintas o diretor me parece ressaltar este abismo culturalmente construido no mundo contemporaneo cheio de diferencas e separacoes inconciliaveis. Existe uma esperanca no filme no meu ponto de vista, quando o diretor une os personagens atraves dos sentimentos, ou dos sofrimentos, e o discurso romantico de “somos todos iguais” ressurge de uma maneira frafil, quase resignada. Me parece um filme bem pessimista, ou seria realista, nao ousaria definir.

Deixe seu Comentário

16/08/2010

Decadência e redenção de um herói por Miller e Mazzucchelli

Por Alexandre Honório

O que torna uma história em quadrinhos fundamental? Equilíbrio entre trama e traço aliado ao talento por trás deles. É isso que transforma Demolidor: A Queda de Murdock em um clássico do gênero e o coloca entre as principais criações da década de 1980 e dos quadrinhos mundiais. Criada por Frank Miller e ilustrada por [...]

[+] Leia Mais

05/08/2010

O brilho e glamour dos monstros de Palahniuk

Por Alexandre Honório

A primeira cena de Monstros Invisíveis poderia ser descrita como o cruzamento entre Scarface, Carrie – A Estranha e Quatro Casamentos e Um Funeral: uma garota, em um vestido de noiva completamente destruído, empunha no alto de uma escadaria um fuzil enquanto, diante dela, aos pés desta mesma escadaria, enquanto tudo ao redor grita em [...]

[+] Leia Mais

16/06/2010

Um conto assustador sobre um atlante com asas nos pés

Por Alexandre Honório

Namor, o Príncipe Submarino, nunca foi um dos meus personagens favoritos. Qualquer personagem que, submarino, traz asas adornando seus pés é no mínimo um absurdo, não? Correto. Porém, devo morder a língua quando o assunto é Namor: As Profundezas, encadernado com o personagem que está atualmente nas bancas de revistas. A edição caprichada faz jus [...]

[+] Leia Mais
BuscaPé, líder em comparação de preços na América Latina

2007 ® Todos os Direitos Reservados

Todos os textos deste website possuem registro Creative Commons License.

DZ3 Design