Por Alexandre Honório - 16/11/2006

A reeleição de Lula desceu seca pela garganta de muitos. Para estes, fora incompreensível – vide os escândalos que pautaram o noticiário nacional dos últimos meses – o movimento que reconduziu um aparentemente fragilizado candidato ao cargo mais importante do país ao cargo. Muitos atribuiram a vitória ao carisma de Lula; outros às maquinações políticas de seu partido; alguns, a uma aparente ignorância das camadas menos favorecidas da sociedade.
O fato, no final, é que um metalúrgico cuja história foi construída nas ruas do ABC Paulista e no movimento sindical em meados das décadas de 70 e 80, com a ajuda de muitos pelo caminho, obteve uma vitória considerada emblemática. As explicações para isso? Bem, o Cinema tem algumas que podem ser finalmente ser conferidas em duas produções relativamente recentes e que, por ocasião da reeleição, chegam às locadoras: os documentários Entreatos, de João Moreira Salles, e Peões, de Eduardo Coutinho.
Este último, longa de 2004, traça a gênese de Luiz Inácio da Silva, o Lula. O documentário traz muitas semelhanças com outro documento indispensável para entendermos a origem do presidente reeleito: Lula – O Início, livro-reportagem de 1981, escrito pelo jornalista Mário Morel e que recebeu este ano uma reedição que merece ser lida. Como em Lula – O Início, Peões faz o caminho do Lula metalúrgico; Coutinho percorre o ABC procurando os “companheiros” que entre 1979 e 1980 cruzaram os braços e reconstruíram o movimento sindical nacional e emprestaram a Lula muito de seu carisma.
Eduardo Coutinho não procurou as “figuras fáceis” do universo petista. O diretor preferiu partir a procura dos anônimos; daqueles que contribuíram para o movimento com seu suor, mas que ficaram pelo meio do caminho – ou que se perderam por ele. O filme tem início no Ceará. Somos conduzidos de lá ao ABC; os verdadeiros “Peões” têm sua trajetória definida: deixaram o Nordeste para construir um pouco da história recente do país.

As entrevistas são os pontos impressionantes do longa. A pesquisa desenvolvida por Coutinho – que não contou com a delimitação do espaço existente em longas como Edifício Master – centrou-se no “você se lembra”. Sim, a memória de alguns personagens do filme foi a ferramente para que outros pudessem ser encontrados. Peões é a história de anônimos e são justamente eles que buscam outros iguais em história. Os planos e roteiro seguem à risca a técnica de Coutinho: personalizar os depoimentos, expandindo empatia além da tela.
O primeiro longa, também de 2004, Entreatos, de João Moreira Salles, mostra os bastidores da campanha à presidência pelo PT em 2002. Salles acompanha o então candidato à presidência Luiz Inácio Lula da Silva e sua comitiva de campanha nos últimos momentos da Eleição em 2002. Salles faz o que sabe melhor: capturar instantes sutis, mas donos de uma carga emocional impressionante.

Salles buscava acompanhar o presidente em seu momento da verdade; na campanha em busca da realização das aspirações pessoais e partidárias deste. A câmera de Walter Carvalho (diretor de fotografia) percorre os bastidores da campanha e seus personagens. Contando com a apurada técnica de Carvalho, Salles preocupa-se tão somente com os depoimentos e como estes se manifestarão no longa; são destes depoimentos e instantes informais que se manifestam as melhores seqüências de Entreatos.
Tanto Peões quanto Entreatos desnudam os bastidores das ascensão e condução do presidente reeleito ao Poder. Explicam a magia por trás deste aparente working-class hero e como conseguiu conquistar o posto de figura política mais importante do fim do século passado e início deste. Foi esta magia histórica, incompreensível para muitos, tanto quanto seus efeitos, que reconduziu Lula mais uma vez ao Palácio do Planalto mais uma vez.
ernaldo vale comentou em 7/12/2007 às 11:21 am
como consiguo cópia do documentário sobre as eleições de 2002. Entreatos e peões
Alexandre Honório comentou em 7/12/2007 às 7:13 pm
Peões saiu em DVD: em qualquer boa locadora você pode encontrar.
Já Entreatos é mais difícil, por não ter sido lançado em formato doméstico: senão me engano, o filme continua sendo exibido no circuito universitário, mas não tem data para sair em DVD.
Genário comentou em 6/12/2008 às 5:51 pm
Saudações! Estou desenvolvendo um trabalho de dissertação que tem como objetivo analisar os dicursos imersos nos cartazes e panfletos das campanhas de Lula e Obama. Solicito informações de como posso ter acesso aos panfletos e cartazes usados na campnha de Lula. Desde já agrdeço muito.
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