Por Equipe Disruptores - 28/08/2008

Temidos, amados e odiados em medidas iguais, Os Bonnies nunca deixaram de causar impressão por onde passaram e tocaram. Após irromperem e se firmarem na “cena” natalense em meados de 2005 com um EP de estréia que unia Sonics e Jovem Guarda com precisão cirúrgica, a banda engatou uma seqüência de shows que os levou dos palcos sujos da Ribeira a um notável canto de parede na edição de 2007 do festival pernambucano Abril Pro Rock. Voltando de uma hibernação de aproximadamente um ano e meio, o quarteto prepara o lançamento de seu primeiro álbum cheio oficial, onde deixam a selvageria um pouco de lado e investem em uma veia pop que vem causando opiniões divididas entre os fãs mais xiitas.
Numa improvável quarta-feira à noite na Cantina do Ednaldo, boteco simpático localizado na veia cava do bairro de Petrópolis, o baixista Olavo Luiz e o guitarrista Arthur Ricardo explicaram essas e outras estórias a Hugo Morais, Alexis Peixoto e Tiago Lopes entre uma cerveja e outra.
Hugo Morais – Vamos começar falando sobre o disco novo. Nele, as músicas estão diferentes do EP de estréia da banda. Conversando com Arthur, ele disse que esse disco marca uma fase de transição…
Arthur Ricardo – Pras pessoas mais próximas não foi uma mudança muito grande não. O EP foi registrado em 2005 e esse disco, agora em 2008. E ainda deixamos de registrar várias coisas nesse período.
Olavo Luiz – Então, aparentemente, o salto é maior. Mas o que importa é que as coisas estão gravadas. Foi gradual pra gente. Foi gradual a mudança, embora possa parecer drástico. Mas daí a explicar porque chegou até aí…
Olavo – Foi natural e gradual. Para quem acompanhava de perto dava para perceber alguma coisa mudando.
Hugo – Mas quem pegar o EP e escutar essas músicas agora vai sentir uma diferença.
Olavo – É, mas pra gente foi uma diferença benéfica. Mudou pra uma coisa boa.
Hugo – O que vocês estão ouvindo de diferente que serviu de inspiração para essas novas composições?
Olavo – No meu caso eu continuo ouvindo as mesmas coisas. Mas na época do EP talvez tenhamos explorado outras coisas. Eu escuto rock de tudo que é época… Não sei dizer não.
Hugo – Tem muita gente que “foi na onda” dessas bandas novas que estão redescobrindo o rock. A gente não ouve essa sonoridade em vocês. Vocês ouvem algo assim?
Olavo – Não. Eu acho que é mais fácil a gente ser contemporâneo a eles fazendo algo do nosso jeito, do que pegar elementos deles. Eu escuto Queens of The Stone Age, por exemplo, mas não é uma influência.
Alexis Peixoto – E essa estratégia de lançar o disco em singles, de duas em duas faixas? Se vocês já tem o material gravado, porque não lançaram um álbum completo logo de uma vez?
Arthur – Pra aproveitar melhor as músicas, para ter uma assimilação mais fácil. É difícil a pessoa hoje chegar e baixar 13 músicas e assimilar. E por mais que fossemos lançar as 13 agora, seria só virtual, porque a gente ainda não tem o encarte do disco pronto. Então podemos lançar singles virtuais e depois prensar o disco.
Olavo – A idéia de fazer separado é justamente ir botando aos poucos, de duas em duas músicas. Vai segurando, soltando aos poucos. E tem os vídeos também.
Tiago Lopes – Eu lembro que eu vi um show de vocês, acho que no começo do ano passado, e já tinham três músicas inéditas. Porque a demora para gravar esse material?
Olavo – Na verdade, já tínhamos gravado algumas ao vivo. Mas gravar pra dizer que tinha um disco mesmo, demorou um pouco. O que aconteceu foi que a gente ainda ficou fazendo show em cima do EP e o que a gente gravava não achava legal. Quando esgotou tudo que dava para render o EP, a gente pensou noutra coisa.
Hugo – E em relação aos vídeos? Vocês estão tendo essa preocupação com os vídeos que outras bandas não tem…
Olavo – É aquela velha coisa de ter uma banda e ter um vídeo-clipe associado a uma música. E já que a gente tem essa coisa de fazer vídeos ou animações…
Hugo – Qual a importância que vocês vêem em juntar essas mídias?
Arthur – A primeira importância é gostar de fazer mesmo e depois é porque é preciso. Se você tem uma banda tem que ter outras coisas atreladas a ela. Sua opinião, uma imagem.
Olavo – A banda termina sendo uma representante de vários produtos pessoais. Então, se você está fazendo uma animação, vai lá e usa na banda. E divulga as coisas que você faz.
Alexis – No caso de vocês, eu acho que cria uma estética muito particular da banda. E isso ao ponto de o sujeito ver uma coisa e dizer “isso é a cara dos Bonnies”, mesmo que não tenha sido feita por vocês.
Olavo – Pra gente foi acidental de início, hoje em dia a gente sabe mais como usar. Aquela primeira, que foi “PRAM!”…
Dona Ednalda (dona do bar, interrompendo)- Tem cerveja aí, tem?
Arthur – Tem não, traga bem gelada… Aquela “PRAM!”, por exemplo, foi uma das que gravamos ao vivo. E como era instrumental e não estava tão ruim, aí resolvemos fazer um desenho pra ela. Mas não foi uma coisa pensada: “Vamos gravar uma música e fazer um desenho pra ela”. Foi por acaso.
Alexis – Os vídeos surgem de forma independente, ou vocês já fazem uma música pensando num vídeo, ou um vídeo pensando numa música…
Arthur – Não. Pode ser que venha independente…
Olavo – Você faz um desenho. Tem uma cena e um personagem, aí depois joga uma música por cima e vai testando e depois vai desenvolvendo…
Alexis – Vocês já pensaram em fazer alguma coisa mais ambiciosa, um vídeo mais longo e fazer uma trilha?
Arthur – Pensar o cara pensa. Mas tem outras coisas que impedem de você fazer uma coisa mais elaborada. Os recursos técnicos, por exemplo.
Olavo – Tudo que a gente fez até agora foi sem roteiro. No dia que a gente fizer um roteiro já vai ser um passo a mais.
Alexis – Vocês falaram agora a pouco sobre o público não absorver o disco todo de uma vez só. Mas ainda assim vocês vão lançar o disco depois. Vocês ainda acreditam no formato disco, nesse conceito de álbum?
Olavo – Eu acredito. Quando eu falo que é difícil assimilar, é porque são tantas bandas, milhões de músicas chegando todo dia… Mas, se você fizer como a gente fez, com as músicas separadas, é mais fácil. Se o cara gostou, vai ao show e lá você tem o disco para vender. Bota para vender, distribui para quem você acha que deve ouvir e, aí sim, talvez absorvam o disco inteiro.
Alexis – Na verdade, é uma versão moderna pra uma estratégia antiga, que são os singles pra atrair interesse pro álbum.
Olavo – É a mesma coisa. Como você diz: uma coisa antiga sendo usada de forma moderna. Mas é a mesma coisa. Não tem como inventar uma coisa extraordinária.
Hugo – Nós achamos que a cena anda parada, mas tem gente, principalmente quem freqüenta o DoSol, que acha que não. Ser movimentada é uma coisa, surgir coisas novas e boas é outra.
Arthur – Se você for olhar, toda sexta tem show. Mas isso é cena? A referência de Natal é Festival DoSol e MADA, não são as bandas.
Tiago – Tocar no AbrilProRock abriu alguma porta para vocês?
Olavo – Portas se abrem dependendo da mobilização da banda. Você vai para um festival e conhece outras bandas, conhece outras pessoas de outros estados e aí você já tem os contatos. Aí se depois você tem uma grana pra investir e circular pelo país agendando shows, hospedagem, aí você vai. Mas não existe isso de você ser chamado para o festival AbrilProRock e aí todos os outros festivais vão te chamar, ou casas de show, ou produtores. É tudo mobilização da banda.
Hugo – Vocês estão tentando agendar alguns shows já?
Olavo – Depois que a gente lançar o disco aqui a gente já está em contato com o pessoal de Recife e João Pessoa, que é mais fácil da gente fazer. No início vão ser essas cidades.
Tiago – Além da vontade de tocar, existe alguma barreira maior para tocarem fora?
Olavo – Geralmente o pessoal das bandas tem empregos regulares e no meio tempo ensaiam, gravam e no período de férias investem numa turnê. Vontade a gente tem. Ás vezes desenrola com uma cidade, mas esse lado financeiro a gente não tem.
Arthur – E tudo hoje em dia está focalizado só na gente. Antes a gente tinha a ajuda de Vlamir [Cruz, da Mudernage]. Ele empurrava muitos contatos, botava a gente para festivais e a gente foi. Agora a gente tem que ensaiar, tem que fazer o vídeo, até a gala de uma foto que tem na internet a gente tem que fazer. Aquela função da máquina, que programa vinte segundos e o cara clica e tem que correr… Foi a gente que tirou a foto. Aí tem que fazer o texto e atualizar o site, atualizar o orkut, mandar material pelo correio. É tudo a gente. O que Vlamir ajudou serviu muito, mas quando é tudo em cima de você, aí as coisas tendem a ser mais lentas.
Alexis – Uma das coisas que mais caracteriza Natal como uma cidade que não tem cena é porque não há uma opinião contrária. Não há um caminho alternativo. Uma coisa que não tem contestação. Ou você toca no DoSol ou no quintal da sua casa…
Olavo – Há caminhos alternativos. Você não pode confundir o DoSol como selo com o Dosol como Centro Cultural. O Centro é um espaço para show, você pode ir lá e querer fazer sua festa, mas ela vai ser divulgada porque eles querem usar de tudo para dizer que está voltado para eles. Mas você alugou o bar e fez sua festa. Do mesmo jeito você pode alugar o Galpão 29…
Arthur – Mas no final vai virar um número. Porque em Natal existem muitos shows por semana…
Olavo – Não significa que isso é a verdade.
Alexis – Mas vocês não acham que se tivessem mais bares com estrutura para shows…
Arthur (interrompendo) – Mas quando vai aparecer o bar, amanhã?
Alexis – Não, o problema da cena é esse.
Olavo – A gente sabe quais são os bares. Pra acontecer show de rock em Natal tem Nalva Café, DoSol, Galpão 29, Armazém, Calígula.
Arthur – Mas as bandas para fazer uma cena, também não precisam ser fortes em Natal Porque ela toca em Brasília, no Mato Grosso, no Acre. Mas se você ficar o tempo todo fazendo show em Natal não vai passar disso nunca.
Alexis – Mas é um caminho necessário.
Olavo – Só que tem que chegar um ponto em que isso, de alguma forma te ajude a aparecer lá fora. Porque senão o cara vai envelhecer, vai fazer concurso para ser professor do CEFET e vai tocar n’Os Grogs. (risos).
Alexis – Resumindo a história, então: tem lugar para tocar, mas como nosso amigo Arthur citou há pouco tempo, faz falta um cara como Vlamir, pra dar uma força.
Olavo – Vlamir cansou de fazer coisas para uma ruma de cara que não querem nada com nada, que não entendem de porra nenhuma. Então, ele está cansado disso e está envolvido com outras coisas. Certo ele, aliás. Vamos esperar o povo das bandas agora. Se as bandas não sabem como isso acontece no mundo, que se virem para fazer acontecer também.
Arthur – Se você tem um disco e sua única satisfação é gravar as músicas, você só tem que gravar as músicas. Mas agora você tem que gravar as músicas, fazer a arte do disco, pensar no show do disco. Foi uma questão de responsabilidade.
Olavo – Se a gente fosse parar e olhar: quem é que vai fazer isso por a gente? As coisas acontecem dessa forma, ninguém é cético, apesar de tudo que aconteceu, de termos tido facilidades antes, a gente sabe como as coisas funcionam. Talvez daqui a dois anos eu esteja fazendo outra coisa…
Hugo – Sendo professor do CEFET.
Olavo – É. (risos) Morar em Pium, vender drogas.
Hugo – Vocês já foram muito criticados por serem porra-loucas demais, por quebrarem coisas nos shows. Já disseram que o público de vocês também depreda os locais, como aconteceu certa vez na Casa da Ribeira. Falem sobre isso.
Arthur – O pior é que naquele dia [da Casa da Ribeira] a gente estava preocupado com o show mesmo.
Olavo – O problema é que a gente é queimado.
Hugo – Mas esses episódios estimularam uma mudança de mentalidade? Vocês estão mais profissionais?
Olavo – Antes a gente estava num canto por uma agitação que não era própria. Hoje se a gente estiver num espaço, a gente que vai desenrolar. Muda nesse sentido. Agora não quer dizer que não vamos estar muito doidos tocando.
E a gela seguiu, o papo furado também…
MySpace: http://www.myspace.com/osbonnies
Clipe/YouTube: “Tão Calmo”
olavo comentou em 28/8/2008 às 11:04 am
edição muito louca, hein
foca comentou em 28/8/2008 às 1:03 pm
1) Correr atrás de tudo é o que uma banda vai ter qu fazer para ficar viva daqui para frente. O lance é arrumar umas parcerias que encurtem esse caminho. Temos feito isso por aqui.
2)”Você não pode confundir o DoSol como selo com o Dosol como Centro Cultural. O Centro é um espaço para show, você pode ir lá e querer fazer sua festa, mas ela vai ser divulgada porque eles querem usar de tudo para dizer que está voltado para eles”.
Explicando: Quando uma banda ou um produtor aluga a pauta do Dosol oferecemos para ele a mesma divulgação que fazemos nos nosso próprios shows. É uma forma de nçao largar o rolé do cara de qualquer jeito, se a banda achou que estávamos nos “apropriando” do show deles era só avisar que retirávamos tudo do show do orkut, fotolog, site dosl e afins. Só que não precisamos mais é provar absolutamente nad apara ninguém, nem aqui nem em luagr nenhum…
o disco tá fodão, parabéns!
Márcio N. comentou em 28/8/2008 às 2:09 pm
ixe, os caba tão famoso hehe
alexandre alves comentou em 28/8/2008 às 6:04 pm
A “gala da foto” (expressão bonnieana) ficou boa. Olavo, eu acho que a edição não foi muito louca, não, hein?!. Deve ter rolado uma verossimilhança aí. E rock pra frente.
Rudá A. comentou em 28/8/2008 às 10:39 pm
1 – Dona Ednalda não. Dona Vera, rapaz…
2 – Pelo jeito Tiago bebeu mais que falou.
3 – Paguei pau pras músicas novas d’Os Bonnies.
olavo comentou em 29/8/2008 às 2:14 am
não falei em ninguém se apropriar de nada e tal. quis dizer que, do mesmo jeito que uma banda procura um bar pra tocar, o bar fará seu nome devido uma programação constante ou uma atração interessante que traga qualquer forma de benefício
leo seabra comentou em 29/8/2008 às 6:56 am
Eles são como a seleção Nigeriana, a princípio desperta interessse, mas não tem consistência pra sustentá-lo. Quem sabe algo um salto de qualiade reverta isso
Hugo Morais comentou em 29/8/2008 às 10:44 am
Rudá, Tampinha que chama ela de Dona Ednalda.
Alexandre Honório comentou em 29/8/2008 às 10:47 am
Discordo, Léo.
Com dois discos irrepreensíveis e a crítica tecendo loas, os caras tão mais pra escrete canarinho que combinado nigeriano…
É preciso reafirmar: Os Bonnies são a melhor cria que o rock norte-rio-grandense pariu em tempos.
E, só mais uma coisa: qualidade e vísceras muitas vezes não caminham lado-a-lado. No fim, no entanto, na maioria das vezes, a segunda importa bem mais que a primeira – principalmente quando o bom rock’n'roll está na jogada.
Márcio N. comentou em 29/8/2008 às 10:51 am
Tomei a liberdade de piratear de disponibilizar algumas das músicas do disco novo:
http://queridobunker.wordpress.com
Escutem lá. Está muito bom. E, para eu não me sentir culpado por nada, comprem o cd
F. comentou em 29/8/2008 às 4:18 pm
Sinceridade e vontade de fazer um som sem se preocupar com a ‘crítica’.Essa é a escola dos Bonnies.
Alias a crítica fala horrores e compreende minimamente…
Alex comentou em 30/8/2008 às 1:53 pm
Sons potiguares bacanas:
Rosa de Pedra
Bugs
Poetas Elétricos
e Bonnies, claro.
Ainda abro uma vaga pro The Sinks.
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