Musicofilia

Portishead, onze anos depois: a terceira vinda dos pais do trip-hop

Por Alexandre Honório - 05/05/2008

Third é um álbum traiçoeiro; passeia através de um terreno que se não exige precaução, ao menos alguma reserva. Dito isso, me parece singular perceber que certos álbuns parecem faróis de um período: neste novo trabalho – o terceiro de estúdio depois de mais de dez anos de hiato – o Portishead parece distante de tudo o que se produziu até então; mais ainda do norte que a música eletrônica tomou neste período. O Portishead, como defendem alguns, hibernou e, por mais estranho que possa parecer, acordou com um disco caótico, complexo, mas, por mais que não aceitem – ou demorem a aceitar -, impressionante.

Para quem vinha acompanhando os passos da banda – de seus integrantes e projetos que estes conduziram durante este “recesso” – a impressão é que o Portishead se manifesta como uma entidade crua; criatura à parte; uma célula criativa que detém seu próprio código. Beth Gibbons, Adrian Utley e Geoff Barrow guardaram consigo a combinação que resulta, agora, neste estranho e, a seu modo, singular novo trabalho.

Com Silence – com citação em português e tudo – são apresentadas as portas que dão acesso ao complexo que a banda construiu: tem início um cortejo de sons e batidas que, mexem com os brios. A canção é, como muito do que está no disco, inquietante; climática, senão; sorumbática, para ficar em um termo mais claro. A voz de Gibbons parece mesclar-se àquela cadeia de sensações que a abertura do álbum enseja – e, sobre a base construída por Utley e Barrow, apresenta-se como uma das mais provocadoras faixas da banda.

É de tal maneira estranha a impressão que se forma após esta faixa em especial: ela detém algo de rudimentar, básico e, ao mesmo tempo, inovador. Um movimento que, a meu ver, exclui qualquer ensaio de previsibilidade que pudéssemos ensaiar. Talvez esta seja a marca por detrás deste novo trabalho: Gibbons, Utley e Barrow demonstrando que, como há onze anos, o principal deve ser a música, e não a construção de uma colcha de retalhos musical que pouco tenha para ser dito.

A sonoridade do Portishead neste Third não remete a nada que possa classificá-lo em algum gênero ou subgênero da música eletrônica; está distante até mesmo do que, nos meados da década de 90, muitos teimavam em enquadrar a banda: o trip-hop. Como Portishead (segundo trabalho do grupo), é complexa qualquer iniciativa capaz de estabelecer paralelos entre Third e o que vem sendo proposto pelo gênero na última década: uma saída do baticum eletrificado para uma atmosfera jazzy cabeçuda. Faixas como Hunter, Nylon Smile e Machine Gun emprestam muito para confirmar esta afirmação.

As duas últimas em questão, juntamente com The Rip, formam uma trinca de canções que certamente detém aquele toque “depois da terceira audição você já era”, porque, por mais estranho que isto possa parecer, parecem etapas que devem ser cumpridas para que possamos estabelecer uma leitura sobre este retorno depois de onze anos fora da luz dos holofotes promovido pelo Portishead.

The Rip é, de longe, uma das canções mais inspiradas da banda e, sem qualquer receio de errar, das mais belas compostas nos últimos dez anos. Não é todo dia que você pode ter o seu espirito massacrado com um refrão como “well, white horses, they will take me away/and the tenderness I feel/will send the dark home to me/will I follow?” e uma canção capaz de desconcertar o ouvinte completamente.

Não acredito que haja algo de revolucionário neste terceiro disco; não acredito também que o Portishead tenha decidido retomar sua carreira por, digamos, apreço ao seu público. No entanto, diante de um disco incomum, difícil e provocador como Third, o que me vem à cabeça é a idéia de que, diferente do rumo que a música eletrônica tem tomado – ou a música pop -, a terceira vinda do Portishead é uma ótima notícia para os orfãos de alguma música.

Confira abaixo The Rip, do álbum Third do Portishead…

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Créditos/Fotos: Dave Bullock / Wired.com

8 Comentários para “Portishead, onze anos depois: a terceira vinda dos pais do trip-hop

Hello,

Can you please also link to my website: http://eecue.com on the photo credit? Thanks!

-Dave

Tádzio comentou em 6/5/2008 às 10:07 am

Escutei “Third” sem nenhuma expectativa. Onze anos na música eletrônica é como passar por alguns milênios. Mas – que surpresa – um discaço!
Achei que a sonoridade de boteco esfumaçado de jazz ficou para trás. Apesar de não se encaixar realmente em nenhum sub-gênero atual da eletrônica, senti umas pitadas de electro (“Machine Gun” é isso totalmente), industrial, e até protoeletrônica dos 60, tipo Silver Apples, além de estilhaços de folk e rock (em vez do jazz de orquestra sampleado dos discos antigos, repito). Tudo processado ao estilo Portishead, como eles faziam com o hip hop no começo.

Definitivamente, não é mais do mesmo. Legal, né?

gabriel comentou em 6/5/2008 às 11:31 am

Cara, ainda não escutei o disco, mas estou curioso pra saber o que uma banda sumida, que tocava um estilo também sumido, tem para mostrar 11 anos depois de…. sumir.

Quando ouvi pela primeira vez o Dummy, naqueles idos de 1900 e Votz, senti que mais que um disco, aquilo era uma delicadíssima obra de arte de vanguarda.

O CD, que tenho até hoje, me foi trazido dos Estados Unidos, a pedidos, por uma amiga de minha mãe
- hahaha, velhos tempos – e embalou tardes e noites ao lado do Mezzanine, do Massive Attack, que considero um disco “irmão” de Dummy.

Quando ouvi o segundo trabalho do Portishead, também achei belo, inteligente e tal, mas senti um retrocesso artístico em relação ao Dummy, ou, numa análise mais psssimista, um “mais-do-mesmo”, sem o brilho da estréia.

Vários anos depois de ouvir esse segundo disco do Portishead, me deslumbrei às primeiras audições do então recém-lançado “100º Window”, do Massive Attack, apenas para descobrir logo depois, que tinha em mãos um bom disco, sem dúvida, mas também um evidente declínio criativo em relação ao Mezzanine.

Agora, lendo a tua análise, me pergunto se o tempo do Portishead já não passou, se o mundo e se meus ouvidos ainda comportam aquela estética sonora tão peculiar da cena de Bristol, que foi o movimento mais interessante na música britânica na década passada. Me pergunto, também, se eles mudaram como Massive Attack mudou para o “100º Window”, e se essa mudança deu certo, ao contrário do que aconteceu com o Massive.

Meu amigo, estou com medo de ouvir Third. Medo de minhas próprias impressões. Mesmo assim, espero amar esse disco como um dia amei o Dummy.

Tádzio comentou em 6/5/2008 às 2:51 pm

Por incresça que parível, eu comprei o “Dummy” em Natal. E não foi na Velvet. É que há milânios existiu uma loja bacanuda chamada “Bi-Music”, ali na Afonso Pena, em frente à Banca do Tota. Já tinha ouvido o Portishead num K-7 que a irmã de um amigo meu mandou da Alemanha – e que eu copiei. Em tempos sem MP3, esses golpes de sorte para ouvir boa música eram providenciais.

Ô Gabriel, ouve esse troço sem medo!

gabriel comentou em 7/5/2008 às 6:34 am

Tádzio, nem fala da Bi-Music!! Até hoje tenho saudades e ainda tenho muita CDs comprados lá, hehe. A loja ficava pertinho lá de casa e do Henrique Castriciano, ou seja, qualquer escapadinha do colégio ou de casa e eu tava lá, mais ouvindo que comprando, mas tudo bem, hehe.

Mas quando ganhei esse exemplar iaque do Dummy, em 98 (já se vão dez anos, inacreditável!), eu acho que a Bi-Music já tava meio decadente.

PS: Criei coragem pra ouvir o disco! rsrs

Caramba, essa The Rip é uma coisa! Muito bom.

Cara, pra mim é o mais fraco dos três discos deles!
Agora, “magic doors” é duka…
Aquele solo de trumpete(?) desafinado-sampleado-liquidificadorizado é de matar! Muito f..a!

http://combustanea.blogspot.com

Tava esperando esse disco a muuuuito tempo

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