Cinemascópio

“Guerra ao Terror” e vida que se distancia dos que estão no front

Por Alexandre Honório - 10/03/2010

Assisti Guerra ao Terror um pouco antes do Oscar. Talvez por isso gostei mais deste filme que o superestimado Avatar. Não é exagero considerar o longa de Kathryn Bigelow (ex de James Cameron, apesar disso não dizer nada) como herdeiro direto de uma tradição cinematográfica que tem em suas fileiras filmes do quilate de Apocalipse Now ou Nascido Para Matar.

A guerra mostrada por Bigelow não é mero pano de fundo, mas palco. Neste palco se discute não apenas a ocupação do Iraque, seus méritos ou equívocos, mas, sim, o vício que impele a máquina estadunidense à busca por conflitos – apontando também que esta perspectiva tem sido a tônica das últimas cinco décadas.

Guerra ao Terror não se resume à máxima que abre sua exibição – “a guerra é uma droga” -, mas esta é o condutor que interroga e interconecta a todos. O Iraque, como disse, se apresenta como grande palco sobre o qual dramas complexo se desenrolam para platéias por vezes resumidas – ninguém parece estranhar o tratamento de estrela que o Sargento William James (Jeremy Renner) recebe de um colega de armas quando afirma ter desarmado mais de uma centena de bombas naquele conflito ou a atenção que outro soldado recebe de seu “oficial-psicanalista”.

A constatação mais vívida em Guerra ao Terror é a de que não há vida além do front – ou que ela não sobrevive ao front e se estilhaça no primeiro contato. Os soldados entendem aquele espaço atemporal, furioso e regido pelo conflito como seu momento de existência – e este é um dos elementos que mais chama a atenção por todo o filme. O sargento James, quando procura informações sobre o garoto vendedor de DVDs, não quer saber quem foi que o matou, mas, sim, o que pode fazer para transformar aquela vendetta em algo emocionalmente instigante.

Kathryn Bigelow, apesar de alguns momentos que beiram a pieguice, soube explorar com precisão os conflitos que envolvem os protagonistas. A escolha por uma abordagem quase documental atribui uma atmosfera particular a Guerra ao Terror: somos como que lançados naquele terreno belicoso e convidados a compartilhar da angustiante rotina da equipe anti-bombas. Não só isso: o espectador é envolvido por completo pelo carrossel caótico de tensões que cadencia o filme.

Guerra ao Terror não é, portanto, um filme mediano sobre uma guerra complexa. Ele e sua diretor apresentam um panorama assustador dos principais atores de um conflito sem hora para terminar e, mais que isso, responsável por manter o sadismo belicista que é seu maior motor.

“A Guerra é uma Droga”, é verdade. Entretanto, não há saída deste poço sem fundo, como a seqüência final parece apontar. Resta esperar pelo fim da fissura e só…

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