Por Alexandre Honório - 24/02/2010

O pregador subiu no ônibus uma parada após a minha. Tão logo pagou sua passagem e atravessou a roleta, se pôs a distribuir aqueles panfletos e a dizer o quanto seu deus era bom e poderoso. Todo seu discurso girava em torno disso e ele sorria enquanto fazia seu “trabalho”.
Estrategicamente posicionado em uma das poltronas próximas às portas de saída e o corredor do ônibus, aquele senhor com seu livro debaixo do braço e muitos panfletos na bolsa sorria enquanto os distribuía a quem passava por perto dele. Seu sorriso impressionava e transparecia uma alegria incomum enquanto repassava cada uma daquelas pílulas de pregação aos passageiros.
Entre um panfleto e outro afirmava as transformações que seu deus promovera em sua vida; o quanto ele era verdadeiro; o quanto era justo e fiel; o quanto nós, todos, irremediavelmente estávamos sob o signo da dúvida e condenados sob o pecado.
Ele reafirmava que a correção divina era a saída. Um ou outro passageiro se propunha a dar mais atenção àquele senhor corpulento que, vestindo uma camisa branca, uma calça cinza e sapatos pretos e surrados, continuava a pregar.
Foi neste instante que um senhor que, creio, estava sentado nos bancos nos fundos do ônibus se ergueu e caminhou em direção à porta. Era um homem alto, de pele clara e que, com um semblante pétreo, pediu parada. Antes de chegar à porta, o pregador o abordou, ofereceu um dos seus panfletos, e sorriu. Com um movimento de mão, o homem, também sorrindo – um sorriso maldoso, mas um sorriso – recusou a oferta, mas chamou o pregador para perto de si.
O homem então curvou-se um pouco e, sussurrando ao ouvido do pregador, sorriu novamente e desceu na parada que pedira anteriormente. O pregador ficou parado por algum tempo onde estava e, estático, como quando alguém recebe uma notícia inesperada e desconfortável, sentou em uma das poltronas.
O pregador deixou seu livro de lado, apoiou seus braços nas pernas e, cobrindo seu rosto com as mãos, chorou como se, tal qual uma criança, tivesse sido abandonado à própria sorte. Os que ainda esperavam suas respectivas paradas tentavam, mas não conseguiam entender o choro do pregador e o porquê dele repetir, entre um soluço e outro, que era o fim.
Distante já, o homem com olhar pétreo desaparecia na cidade: ele sabia que tinha arrancado a fórceps e com sucesso o espírito de um fraco…
waldenor comentou em 28/2/2010 às 12:35 am
rs… já tive muitas fantasias como essa não só para com esses ajudantes-do-Senhor-para-o-tormento-do-próximo mas também com o festival de pedidos que assolam os ouvidos daqueles que estão só de passagem nos coletivos…
waldenor comentou em 28/2/2010 às 12:40 am
ahh outra coisa… fiquei imaginando, durante a leitura, o deleite do querido Norman Bates imaginando isso enquanto em um ônibus e escutando um desses pregar…rsrs
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