Cinemascópio

Filme analisa as consequências da guerra sobre o indivíduo

Por Yuri Borges - 18/02/2010

Guerra ao Terror, da diretora americana Kathryn Bigelow, não é um filme de guerra no qual se ouvem tiros e explosões o tempo todo. Está longe do estilo montanha-russa de obras como Falcão Negro em Perigo (Ridley Scott) e tantas outras. Talvez por isso tenha tido uma fraca bilheteria em seu país de origem, a ponto de, no Brasil, ser lançado, no final do ano passado, apenas em DVD. A boa acolhida da crítica e os prêmios amealhados em festivais, no entanto, fizeram as distribuidoras mudarem de estratégia e, desde o último dia 5, temos a chance de conferir na telona este que virou um dos fortes candidatos ao Oscar de 2010. (Em Natal, por sua vez, entrou em cartaz nesta semana.)

A tensão e a ação estão sim presentes no filme, mas, pelo menos em parte, a serviço de uma discussão relacionada aos efeitos da guerra sobre o indivíduo. Até aí, é verdade, não há nenhuma novidade. No entanto, um dos seus pontos fortes é atualizar o debate, – trazendo a história para a guerra do Iraque no período pós-ocupação – e, mais do que isso, mostrar esse contexto do ponto de vista de uma companhia anti-bombas. E isso faz toda a diferença, tanto por proporcionar o tipo de ritmo e tensão contidos criados por Kathryn Bigelow, como por fazer com que o enredo também possa se centrar nos personagens.

Cartaz de Guerra ao Terror de Kathryn Bigelow

A história caminha, portanto, em torno desta equipe formada por três homens e dos trabalhos de desativação de bombas que eles precisam realizar até que se passem os dias necessários para o “revezamento”, prazo depois do qual serão substituídos por outro grupo especializado. A chegada do sargento James (interpretado por Jeremy Renner) para comandar o grupo e o conflito gerado por seu estilo suicida e viciado em adrenalina marca o início da relação conflituosa entre os três homens e também a narrativa propriamente dita.

Kathryn Bigelow vai, então, narrando seu filme com um estilo que lembra o de documentário – com direito a câmeras na mão e imagens tremidas –, mas que não se limita a isso, já que o dosa com passagens de alto teor subjetivo. Exemplo disso é a cena em que James, após retornar de uma ação, entra debaixo do chuveiro vestindo o estranho uniforme de proteção dos marines que desarmam bombas – que mais lembra a roupa de um astronauta – e se vê o sangue escorrendo pelo ralo, mesmo que não seja possível enxergá-lo sobre a roupa.

O filme demonstra as consequências da guerra sobre os três protagonistas, mas principalmente sobre James, o homem de frente do grupo, aquele que realmente analisa e desativa os explosivos. Ao longo da história, ele vive momentos de aproximação com outras pessoas, seja com os colegas de companhia, seja com um garoto iraquiano, de quem compra DVDs e joga bola em frente ao alojamento do exército americano. Todas essas tentativas de relacionamentos e construção de afetos vão, no entanto, sendo destruídas pelas circunstâncias do conflito.

O caso do garoto é o mais exemplar. O sargento vai atender a uma chamada para desarme de um explosivo e descobre o corpo do menino, depois de assassinado, acoplado a uma bomba. O impacto emocional sobre ele é grande. Só depois é que se percebe que aquele não era o mesmo garoto, porque numa cena subsequente, já próxima ao final do filme, ele cruza por James e se oferece para jogar ou vender DVDs, mas, desta vez, o militar o ignora solenemente. Kathryn Bigelow parece nos dizer que, mesmo numa situação em que não existe uma guerra aberta e declarada, a perpetuação do conflito só pode levar a um embrutecimento cada vez maior dos envolvidos.

De volta para casa, percebe-se que James também não consegue mais caber no lugar que a sociedade lhe guarda. Em uma cena emblemática, ele tenta contar à sua mulher sobre um atentado a bomba em que dezenas de pessoas morreram. Ela, displicente, está preparando o jantar e “responde” lhe dando uma cenoura pra descascar. Tanto no Iraque, como nos EUA, a possibilidade de um verdadeiro contato com o outro é tirada do personagem.

Uma ressalva a ser feita a Guerra ao Terror diz respeito ao ponto de vista centrado unicamente no soldado americano, o que, se fosse de outro modo, ajudaria a se ter uma visão ainda mais ampla do conflito. Que bom que existem filmes como Bubble e Paradise Now (para citar produções que retratam outro conflito no Oriente Médio), que não se deixam dominar por um único ponto de vista e nos proporcionam “estar na pele” de pessoas com histórias e cultura tão diferentes das ocidentais.

Afora isso, a qualidade e relevância de Guerra ao Terror são inegáveis. O filme contribui para trazer uma compreensão mais precisa e, ao mesmo tempo, subjetiva, humana da guerra. Afinal, não há como se ter uma real compreensão de um fato histórico sem levar em conta suas dimensões humanas.

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