Por Alexandre Honório - 17/02/2010

Lá estava José, despido de suas armas e de qualquer vontade. No meio do Carnaval, na grande cidade, o velho caboclo procurava se equilibrar apoiado em sua lança, enquanto aqueles ao seu redor olhavam-no com uma mistura de admiração, indiferença e repulsa.
José, desconcertado pela bebida, apenas admirava seus despojos depois da festa; um olhar vago, como quando nos apercebemos da vergonha que nos toma enquanto nadamos e afundamos na merda. O caboclo não entendeu quando aquele sujeito estranho diante dele pediu para vestir sua gola, seu chapéu e empunhar sua guiada.
Descrente, José aproveitou e pediu alguns trocados: não vira mal algum em transmitir a honraria para o outro e desconhecido. José também não percebeu o sorriso que se formara no rosto do estranho enquanto contava as moedas que logo lhe foram dadas; não percebeu a incontida alegria daquele diante dele enquanto vestia seu chapéu, sua gola e, empunhando sua lança, pediu com certa arrogância seu lenço e cravo.
- Você, José, me vendeu esta honra; você, José, me vendeu seu lugar; você, José, agora segue sem rumo – disse o estranho antes de, ornado pelas armas e cores do velho caboclo, virar e perder-se na multidão.
Para José, despojado e em desonra, restava apenas lamentar os poucos centavos que tinha à mão e o riso daqueles que agora o cercavam…
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