Por Alexandre Honório - 22/12/2009

Em uma cena vemos que Eli está sobre um brinquedo do parque em frente ao seu novo prédio. A composição mostra a neve cobrindo todo o parque e ela que observa Oskar: ele treina com um canivete como “enfrentará” os valentões da escola. Eli, depois que Oskar percebe sua presença, diz que não quer ser amiga do garoto. Corta. A cena em questão é de Deixa Ela Entrar, longa do diretor Tomas Alfredson, e é desde já um dos meus filmes favoritos desta e de qualquer época.
O filme tem o mérito de redimir o mito do vampiro da pasteurização em que este se encontra atualmente. Um mito vítmado por caricaturas que podem ser vistas em séries como True Blood ou Vampire Diaries ou revestido por uma metáfora/atmosfera assexuada beirando a demência potteriana – caso dos filmes Crepúsculo e Lua Nova. Distante dos arremedos do gênero, Deixa Ela Entrar é, antes de mais nada, um filme sensivelmente cruel, mas é, sobretudo, sendo este um dos seus trunfos, um belo conto sobre a amizade, confiança e companheirismo.
Alfredson transforma o livro Låt den rätte komma in, de John Ajvide Lindqvist (que também o roteiro da adaptação) em um filme indispensável. No longa, Oskar (Kåre Hedebrant) é um garoto solitário que, em meados da década de 1980, sofre com a perseguição de outros garotos da escola. Por não conseguir lidar com o assédio de seus perseguidores, Oskar se refugia em um mundo só seu – em um dos melhores planos do filme, Oskar esfaqueia um poste de madeira enquanto a vampira Eli tenta entender o que está acontecendo. A vida do jovem Oskar começa a mudar quando Eli (Lina Leandersson) passa a morar no mesmo prédio em que o jovem vive. Muda exatamente quando ela vê em Oskar alguém em quem se apoiar.
Mesmo afirmando que não quer ser amiga do garoto, Eli começa a se envolver com ele – enquanto isso seu “protetor” Håkan procura garantir a dieta da jovem por sangue fresco matando e extraindo o liquido necessário à sua sobrevivência.
Assim, Eli é a contraparte de Oskar. É estranho perceber que, mesmo se tratando de um filme de vampiros, a relação entre os dois não é em nenhum momento afetada ou exagerada. Ao contrário, Alfredson mantém certa tensão, mas mostra a sensibilidade que a relação entre os dois exibe. Um dos melhores momentos do filme é quando Oskar, depois de descobrir que Eli é uma vampira, com toda a inocência a alguém na sua idade, se nega a convidá-la para entrar em sua casa: o desespero que Oskar demonstra ao ver Eli jorrando sangue por todos os poros, antes que ele faça o convite, é angustiante e, de certa maneira, comovente.
O grande trunfo de Deixa Ela Entrar está nas escolhas que o diretor Tomas Alfredson fez em torno do mito do vampiro: a obrigação do convite (uma metáfora poderosa, já que Oskar a convida para entrar em sua vida); a transmissão da sede; o abrigo da luz do sol; o transtorno diante do sangue.
O simples fato das locações escolhidas por Alfredson na Suécia refletirem uma desolação incomum, representar a esterilidade das relações, reforça a imagem que se faz visível por todo o longa: Eli e Oskar são, cada uma a sua maneira, párias. Oskar é uma criança que tenta lidar, não só com a perseguição que sofre na escola, mas com problemas mais complexos – como o alcoolismo do pai e a relação distante que mantém com a mãe – e que são apresentados de modo sutil pelo diretor. Os problemas de Eli não são nada diferentes: além da sede, a morte de Håkan a oprime. Os dois, conectados por um companheirismo que resiste à opressão e que se manifesta até por Código Morse, terminam por seguir um caminho comum em que um terminará se apoiando no outro.
No fim, com um arremate impressionante, Deixa Ela Entrar se sobressai não apenas como um filme sobre o mito do vampiro que realmente importa, mas como um daqueles filmes indispensáveis para os fãs do bom cinema. Não se surpreenda se nos próximos vinte ou trinta anos este filme venha a figurar nas listas de produções indispensáveis: o filme de Tomas Alfredson é feito da mesma substância que transformou longas como O Clube dos Cinco e Garotos Perdidos em filmes atemporais. Até poderia cair no despenhadeiro das comparações e afirmar com um sorriso no rosto que Deixa Ela Entrar mais parece uma boa mistura destes dois filmes com um toque aqui e ali de Gus Van Sant.
No fim, assista e tire suas conclusões sobre um dos melhores filmes desta década…
Nicolau comentou em 31/12/2009 às 12:56 am
Alexandre, será que o Håkan também foi um menininho como o Oskar e ela só está buscando um substituto para o falecido Håkan? Será que Oskar só será usado e descartado como o Håkan? Ou existia um amor pelo Håkan também? Essas questões me atormetam…
lula comentou em 31/12/2009 às 7:09 am
Faço minhas as suas palavras. Um filme cruelmente belo. Um filme para ver muitas e muitas vezes. Você sabe que vejo poucos filmes e Deixe Ela Entrar entrou para o meu imaginario Kinematográfico.Sem palavras.
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