Por Alexandre Honório - 05/12/2009

Confesso não entender ainda o porquê da piada do comediante Robin Williams sobre “50 strippers e meio quilo de pó” e a escolha do Rio como cidade-sede das Olimpíadas de 2016 gerar tamanha polêmica. Parece até que Williams tocou em algum nervo exposto ou dera início a alguma jihad. Na verdade, no fim, ele tocou no nervo hipócrita que carregamos desde berço.
Em geral o brasileiro, especialmente aqueles que se deitam em berço esplêndido literalmente – toda esta fauna facilmente irritável que emprenham togas, anéis ou que adoram plenários –, tem dificuldade em compreender a noção de liberdade que se faz perceptível quando o assunto é o humor norte-americano. Williams, como outros comediantes, cresceram, foram cultivados tendo em mente algo maior e que para eles é muito caro: a liberdade inalienável que o sujeito tem de dizer o que pensa.
Uma liberdade calcada em um textinho simples, direto: “congress shall make no law respecting an establishment of religion, or prohibiting the free exercise thereof; or abridging the freedom of speech, or of the press; or the right of the people peaceably to assemble, and to petition the Government for a redress of grievances”. Robin Williams entende que pode dizer o que pensa; entende que sequer o Estado que o representa não pode cerceá-lo: não pode impedi-lo de expressar seu pensar – ou fazer glosa de algum tema recorrente.
Somos, no geral, um país acostumado aos cerceamentos cotidianos de praxe. Convivemos em um país regulado por um patrulhamento hipócrita e melindrado: como constatara Sérgio Porto, a.k.a. Stanislaw Ponte-Preta, um país submetido a um festival de besteiras particular e aparentemente interminável. Mesmo a preocupação de jornais como Folha de São Paulo e o Globo, dentre outros, demonstra a disposição natural da imprensa em repercutir algo que para o restante do planeta pareceria trivial: um comediante fazendo piada sobre uma situação.
No fim, quando toda a poeira e insistência cessarem, o brasileiro médio continuará considerando mais ofensivo uma piada em um desenho dos Simpsons sobre “macacos que depenam carros” em um Rio de Janeiro e que mais lembra uma locação de algum filme de Tarzan que uma imagem de um político enfiando maços e maços de dinheiro bem lavadinho na cueca.
O brasileiro médio estrebucha e quer mostrar sua indignação ao comentário “ofensivo e de mau-gosto” de um comediante como Robin Williams – que tira um sarro sobre a escolha do Brasil como sede das olimpíadas –, mas não se incomodará certamente se algum ônibus incandescente aparecer em Copacabana.
Como no parágrafo inicial, afirmo: acostumados à ausência de liberdade para dizer o que gostaríamos que fosse dito, metemos os pés pelas mãos sob uma noção imbecil de patriotismo – este, o refúgio maior da idiotia. Não nos importamos com um jornal que não pode noticiar verdades sobre um senador coberto de lama ou com um blogueiro processado por permitir a expressão e a liberdade que ela encerra.
Preferimos seguir, como cordeirinhos, o que alguns regentes desse festival patético de amenidades que afoga o Brasil nos colocam como certo e, como tais, nos transformamos na caixa de ressonância das baboseiras que se colocam diante das discussões realmente importantes.
Na contramão, prefiro acreditar que Robin Williams seguiu à risca o ditado “perco o amigo, mas não perco a piada” e tascou um divertido comentário sobre a disputa pela global pela cidade-sede das Olimpíadas e o teatro meia-boca dela. Fez valer, como Matt Groening e seus Simpsons, uma visão ficcional sobre algo que de fato se deu. Se compartilhássemos de um senso de humor pra valer e libertário, poderíamos pedir aos integrantes do Hermes & Renato uma esquete em que alguém caracterizado como Obama se apresentaria como um ex-presidente que se muda para um morro do Rio e se envolve em situações na comunidade.
Não. Não rola… O Casseta & Planeta já fez isso com o Osama e o resultado foi terrível. Enfim, até nosso humor tá uma boa merda mesmo…
Marcos Silva comentou em 8/12/2009 às 1:32 pm
Caro amigo:
Faz parte do sagrado direito a dizer o que se quer ouvir o que não se quer.
Cordialmente:
Marcos Silva
Márcio Franco da Silva comentou em 11/12/2009 às 7:05 am
Os Simpsons no Brasil, Turistas, Robin Williams, etc. Essa nossa linha cultural já ilustrou um comercial de televisão onde dois rapazes criticavam o país e um estrangeiro, acho que um argentino, entrava na onda e prontamente era censurado. Estamos impregnados daquela antiga cultura do “Ame-o ou deixe-o”.
Nicolau Chiavenato comentou em 13/12/2009 às 8:40 pm
Eu também não entendi porque tanto alvoroço sobre isso. É a pura verdade! O pior é que minha namorada fica indignada que eu pense assim… haja inocência!
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