Por Milena Azevedo - 11/01/2009
Que a verdade seja dita: por mais descolado que seja o fã de quadrinhos, ele é um leitor tradicional, em sua maioria. E não estou me referindo apenas aos “fanboys”. O fato é consumado.
Eu já me questionei diversas vezes tentando entender porque cargas d´água leitor de quadrinhos, no Brasil, tem o costume maldito de preferir reedições de HQs de super-heróis a “experimentar” HQs mais conceituais, mais elaboradas.
Pergunte quem conhece Peter Bagge, Charles Burns, David Lapham, Héctor Oesterheld, Boucq, Enki Bilal, Gradimir Smudja e Kazuichi Hanawa, só para citar alguns nomes de brilhantes quadrinistas europes, norte-americanos, latinos e asiáticos, que apenas um ou outro dirá que leu ou ouviu falar daquele sujeito. É lastimável.
Não quero me posicionar como pseudointelectual; apenas escrevo o que constato, em tom de desabafo, por ser uma leitora de quadrinhos ainda insatisfeita com o cenário nacional.
Esse “preconceito” com artistas não tão badalados pela mídia norte-americana faz com que muita coisa boa não chegue a ser publicada no Brasil. As editoras, aqui, dificilmente apostam em quadrinhos de autor porque sabem que não será rentável. As que tentam, muitas vezes são ridicularizadas porque “os super-leitores” as vêem como “capitalistas”. No entanto, esses que criticam se esquecem de que tiragem pequena resulta em preço maior para o consumidor, e ficam pedindo a cabeça da editora.
Eu torço pra caramba para que a Zarabatana, a Conrad, a Devir, a Via Lettera e as ditas editoras sérias, como a Jorge Zahar e a Cia. das Letras (essa vai criar um selo somente para HQs), não deixem de publicar séries como: O Bordel das Musas, O Gato do Rabino, Mister X, Predadores, Nausicaa; ou deixem de apostar em títulos como: A sombra das torres ausentes, Fun Home, Pyongyang e Ódio.
Até editoras que trabalham em títulos mais comerciais, como a Panini, que publiquem sempre um material como Leões de Bagdá. E editoras nacionais, como a HQM, que sigam com as séries Os mortos-vivos, Liberty Meadows e .
Se um fã de Mcfarlane, por exemplo,começar a ler Mike Mignola ou Ed Brubaker, ele vai gostar. Então, ele pode passar a ler também Frank Cho, Will Eisner e Carlos Trillo. Basta querer. Basta abrir a revista, folhear, levar pra casa e se deixar envolver; ou então, ler em scan, pelo menos, e conhecer novos autores/desenhistas.
Outro grande preconceito que existe ainda gira em torno do quadrinho nacional. É óbvio que concordo com àqueles que tem ojeriza à cópia mal feita de comics norte-americanos. Porém, tem muita gente que mesmo vendo belíssimos trabalhos como Chibata!, O cabeleira, a série Leão Negro, O homem que sabia de menos, prefere comprar alguma HQ mais pasteurizada. Que puxa!, como diria Charlie Brown.
Não que eu seja contra quem compra quadrinho apenas para não ver a sua coleção incompleta, ainda que as histórias estejam uma droga e a arte, um lixo; cada um sabe o que faz com os seus trocados.
As editoras brasileiras, de três anos pra cá, descobriram o filão das livrarias e estão apostando suas fichas em obras incrementadas para seduzir novos leitores ou o pessoal da velha-guarda, que havia parado de ler “gibi” e agora desejar recomeçar o hábito saudável. Todavia, esses neoleitores precisam se contentar com informações colhidas na internet ou a dica de algum amigo, porque nas livrarias dificilmente alguém dirá a ele que quadrinho é bacana e merece ser conferido.
Assim, a livraria, que tanto havia esnobado os quadrinhos, quem diria, virou um local perfeito para os leitores mais intelectualizados. No entanto, esses leitores ainda tem um ranço tradicional dentro de seus corações rebeldes. É só ver a lista dos mais vendidos nas “casas do saber comercializado”.
Por trás das histórias em quadrinhos há uma indústria que gera uma quantia enorme de papel moeda, na forma de licenciamento de personagens para cinema, TV, memorabilia, artigos de papelaria e guloseimas das mais variadas. Há também os artistas que criam suas HQs pensando-as como obras de arte, que na era da pós- reprodutibilidade técnica, agora digital, conseguem chegar a milhares de pessoas, no mundo inteiro. Legal ter acesso às duas realidades. Mais legal ainda é poder ver, um dia, a arte falando mais alto do que o valor de mercado de um personagem.
Lilian Canen comentou em 15/1/2009 às 6:18 am
Parabéns Milena!
Que sua coluna tenha longa vida e “infecte” o mundo virtual!!
Vai ter muita gente viciada por aí!
Bjos
Lilian
Bruna comentou em 16/1/2009 às 4:59 am
Oi Mariana,
Meu nome é Bruna e trabalho na Edelman, agência de comunicação da Jorge Zahar Editor.
Parabéns pelo blog!
Vou encaminhar o seu recado sobre as histórias em quadrinhos para a editora.
Para quem não conhece os quadrinhos editados pela Zahar, vejam no site: http://www.zahar.com.br/catalogo_livros.asp?cat=33
Abraços!
Milena comentou em 16/1/2009 às 6:32 pm
Obrigada, Lilian e Bruna!
Lilian, segui o seu conselho e até dedico esse meu primeiro texto aqui nos Disruptores a você.
Bruna, espero mesmo que a Jorge Zahar continue com as HQs. O catálogo, apesar de pequeno, já conta com títulos maravilhosos (os do Proust eu ainda não li, mas a vontade é tamanha).
[]s,
Milena
Milena Azevedo comentou em 23/1/2009 às 11:09 am
Ah, só para completar o título que ficou faltando das séries que a HQM está lançando: Os mortos-vivos, Liberty Meadows e Invencível.
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