Contos Insolentes

Estela

Por Aristeu Araújo - 28/02/2007

estela

Estela beira os oitenta anos. É a mais velha e a única viva das sete irmãs que sua mãe pariu e criou em verdes de pastagens e café. Estela carrega consigo essas vidas, sabe-se detentora dessas histórias: de Ana, que suicidou-se aos 17 anos, vítima do veneno que não era para ela, mas para os ratos que à cozinha freqüentava nas madrugadas; de Glória, que encontrou apenas aos 42 anos o médico com o qual se casou e não conseguiu salvá-la, anos mais tarde, de um enfarte numa manhã de segunda-feira; de Carmem, que bordou seu enxoval, na mesma cadeira, até sua morte senil e solteira; de Rebeca, que fugiu amando aos 16 anos, para só reaparecer em seu próprio velório, cinqüenta e um anos depois; de Ângela, que teve três filhos, dez netos e dormiu tranqüila para não acordar, após um jantar em que reuniu toda a família em seu aniversário de 70 anos; e de Constância, a caçula, que ninguém entendia seus arroubos comunistas e humanitários, até que um dia foi dada por desaparecida.

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Cinemascópio

Da dor à redenção

Por Aristeu Araújo - 20/02/2007

babel

Quando Amores Brutos estreou no Brasil, Alejandro Iñarritu estava apenas começando sua carreira internacional. Após seis anos e mais dois longas, agora o seu nome é uma assinatura. Uma assinatura tão forte que permitia prever o que Babel, seu novo filme, traria para as salas de cinema: um emaranhado de histórias que se chocam umas às outras, fragmentadas, sem ordem cronológica; tragédias e respectivas dores, muitas dores.

Iñarritu alcançou algo muito complicado para os nossos dias de blogs, fotologs, youtubes… conseguiu imprimir uma marca, deixar claro do que trata sua assinatura. Diante de toda hiperprodução de informações, do surgimento de tantos gênios efêmeros, da magnitude do descartável, Iñarritu conseguiu estabelecer seu nome. Por outro lado, toda a necessidade de arrebatamento tão típica do mundo contemporâneo – essa busca pela catarse em cada byte de e-mail, em cada nova obra de arte ou publicidade – trabalha contra ele.

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NoNarte

Morrison, Quitely e Os Doze Trabalhos do Homem de Aço

Por Alexandre Honório - 15/02/2007

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Um Superman como nunca se viu. Esta é a primeira impressão que o leitor terá ao conferir Grandes Astros: Superman que chegou às bancas brasileiras em Janeiro e agora pousou nas minhas mãos. A publicação apresenta ao público brasileiro as “diabruras” que vêm sendo promovidas pela dupla Grant Morrison & Frank Quitely no título All-Star Superman.

Os dois foram responsáveis por uma das revistas mais bacanas de 2005, We3, e também pela revolução que tomou conta dos X-Men quando da passagem de Morrison pela publicação – meses antes da DC Comics renovar seu passe junto à editora. Morrison já tinha passado pela DC e deixado sua marca: Homem-Animal, Os Invisíveis e o clássico Asilo Arkham são alguns dos petardos do cidadão – sem falar na fase da Liga da Justiça roteirizada por ele e sua incursão pela séria DC: Um Milhão. Know-how o cidadão tem de sobra…

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Contos Insolentes

Correspondência do Dia

Por Carlos Gurgel - 12/02/2007

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Diabinho de dia. Aquela voz sussurrando do que se podia fazer quando se ficou sabendo que no sábado que passou, pessoas morreram, caindo na noite, como avisos de um tempo que não se faz mais amigos.

Foi assim. Hoje já não sou mais uma pessoa confiável. Já não guardo segredo do que me disseram, como uma colina que vai se desmanchando em dores, como óbito de uma festa, como a vontade de se dizer sempre ausente de aparições, filme de uma rua deserta, prolongamentos de silêncios e betumes.

O difícil que se diz é o sol que mata. Que não se lança no meio de uma conversa, com o mesmo traço vigente. Como vozes que alardeiam o desejo de não se acostumarem com o precipício da verdade. Reza de uma cantilena que não se larga no meio do mundo, como uma rosa que brilha, que ofusca o chão de quem se deseja discípulo de romarias e calos.

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Musicofilia

Neon Bible é barroco! Neon Bible é bacana! Porém, não convence…

Por Alexandre Honório - 06/02/2007

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“Todas as palavras perderão seu significado/Mostre-me algo que não me pertence”, manda o Arcade Fire já na primeira faixa de Neon Bible, seu segundo e aguardado disco. Black Mirror é uma das poucas canções que realmente salvam o disco – já que muito fã tem arrancado os próprios pentelhos afirmando que o disco seria a maravilha musical de 2007. É bacana, interessante, mas não chega a ser tão genial assim…

Neon Bible não lembra em nada o álbum anterior, Funeral – o que não é ruim e demonstra que o grupo vem buscando outras possibilidades (algo raro nestes tempos). O problema com Neon Bible está sobretudo na opção exagerada por uma atmosfera barroca (!!!). As harmonias são grandiloqüentes; há momentos em que você imagina como deve ter sido difícil encaixar a porra dos órgãos na massaroca musical deste trabalho; em outros, por sua vez, o encantamento é inevitável.

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