Por Clodoaldo Damasceno - 26/12/2006

Era difícil reconhecer quem quer que fosse sob a máscara, mesmo que usasse a mesma, com tantas iguais. Com as mais comuns de silício ou as mais caras de aço ela modificava seus esconderijos, circulando pelas infindáveis filas nas infindáveis passarelas.
Há três anos, quando a última torre foi construída, tornando-nos a primeira civilização do universo próximo a consolidar a ocupação plena do globo e bilhões jogaram-se em sincronia dos topos das torres de onde viviam até os canais salgados – que ela me explicou terem sido, antes do degelo, usados nas ilhas em lugar das passarelas, viadutos, túneis e trilhos – foi também o dia em que tornou-se foragida.
[+] Leia MaisPor Alexandre Honório - 24/12/2006

O mundo dos quadrinhos deve muito a Will Eisner; muito mesmo. Não bastasse ter feito história com The Spirit e estabelecido os parâmetros daquilo que ora definimos como “arte seqüencial”, foi o responsável pela origem do termo Graphic Novel. Livros como Um Contrato com Deus, Fagin – O Judeu ou O Edifício serviram para consolidar seu lugar na história da nona arte. No entanto, mesmo considerando a genialidade por trás de Eisner, seu livro mais recente lançado no Brasil, O Complô – A História Secreta dos Protocolos dos Sábios do Sião, é chato pra caralho… bem, sua metade final pelo menos.
O Complô é um panfleto. Nada demais até aí, se encararmos outro autor de quadrinhos jornalístico-políticos, Joe Sacco. No entanto, com O Complô, com exceção à técnica de Eisner e à reconstrução histórica, o resultado torna tal documento cansativo
[+] Leia MaisPor Moura Filho - 22/12/2006

PARTE 1 – A APOSTA
J: Segura isso aí… (joga uma caixinha com algo dentro, dá um risinho curto) Hehe…
– Que é isso?
J: Só segura e escuta… (Acende um cigarro) Estava lá naquele bar do Centro. Um cara chegou na mesa que eu estava e falou: “Aê, ‘boe’, aposto contigo que dou três pauladas no meu ovo esquerdo com esse copo sem nem piscar. E aí? Encara? Valendo uma grade. Que tal?”. Eu demorei um pouco para entender porque já estava meio chapado. Olhei o cara… Ele usava um calção de listras, daqueles de escola mesmo, saca? Lembrava aquele jogador, personagem do Chico Anísio. Pô, Chico Anísio é uma… Então… Fiquei naquela.
– E o cara?
J: O cara insistiu. “Como é, velho? Vai encarar ou não?”. Aí eu perguntei o que porra era mesmo. Ele explicou novamente: “Simples ó: boto meu ovo pra fora e dou três pauladas com o fundo do copo. Sem tremer nem parar. Se rolar, tu me paga uma grade. Senão, tu que bebe. E aí?”
[+] Leia MaisPor Carlos Gurgel - 21/12/2006

Quase sempre vejo as estrelas como figuras do passado. Mas hoje, quando acordei, tive um pressentimento horrivel. Era como um redemoinho que me roubava língua, pescoço e culhões.
Arrastava-me feito um urso vadio, p’ro meio da noite, no espaço onde se vislumbra medo e intriga.
Foi como um vendaval que invadiu meu quarto, como uma força que me levou. Até hoje, por causa disso, invento uma resposta para uma pergunta que eu não sei como formulá-la. Sim, vagalumes me acompanham. O olor do universo, lá de cima, sua como pirâmides que anunciam anjos e trombetas.
Penso que ao redor de constelações estrelares, meu corpo tomará outra dimensão.
[+] Leia MaisPor Alexandre Honório - 18/12/2006

Música crua. Os primeiros discos de Nick Cave e seus Bad Seeds transpiravam crueza. Não é, portanto, estranho que Cave, para desviar dos caminhos ora percorridos com discos como Abattoir Blues/The Lire of Orpheus (2005) ou Nocturama (2003), tenha optado por um projeto-paralelo e retomar uma atmosfera mais visceral que já lhe fora particular. Disso, claro, surgiu Grinderman: um quarteto amargo, raivoso e, tanto quanto os primeiros anos de Bad Seeds, visceral.
A banda, na verdade, é o “bom e velho” Nick Cave & Bad Seeds. Uma banda, no entanto, com outra postura; remoendo idéias antigas que mereciam atenção e remontando-as. As canções são secas; ásperas, na realidade.
[+] Leia MaisPor Carlos Gurgel - 17/12/2006

No caminho que eu ando, encontro ao redor dos bichos, os restos do que o mundo me cede. A sede dos bichos que estão pelo meio do caminho quer dizer paz. Somos, porisso, o que encontramos pelo meio do caminho.
Pelas pedras que encontramos pelo meio do caminho, descobrimos o sofrimento de quem já passou pela morte e pelas suas enormes colheitas. Somos criados como imagem das nossas sobras e sombras. Como imagem de um silêncio que não se escuta. O caminho para quem parte dele, é o conhecimento de escarros e impropérios. Somos o que caminhamos pelo solo. Pisamos no chão como princípio de uma sobrevivência do corpo e do espírito.
[+] Leia MaisPor Carlos Gurgel - 15/12/2006

Velejar como hóspede da canalhice da urbe. Se deleitar como vagalume que ronda, esperneia, e roça-se por entre sombras e penumbras. Vagar feito ermo. Temporalizar salivas e soluços. Urtiga e caroço. Mel e a vadia sensação do recomeço. Urgir. Ventríloquo de espermas e esperas. Cadafalso de intermináveis promessas. Venda que cerra olhos e pescoços. Cera que lima versos e verões. Líquen que espalha ao redor do noturno vulto, sussurros de uma bestialice maldita. Cerco que alinhava poemas e pendões libertários. Vasto inferno de lanças e dragões, empinando o suor do lixo das nossas vãs filosofias. Medidor do caos, como limbo de uma vagonete que se aproxima da demência dos nossos olhares fúteis. Restos das sobras dos nossos incalculáveis perdões.
[+] Leia MaisPor Alex de Souza - 13/12/2006

Era a primeira vez que caía num vácuo de eternidade, durante meus deslocamentos temporais. Primeiro, ao perceber a turbulência no fluxo sincrônico, fui tomado por um espanto e desespero, enquanto o painel se oxidava e desintegrava em frente aos meus olhos, para depois se reconstruir. Depois, lutei obstinadamente por vinte minutos para reiniciar os sistemas da nave. Foi quando lembrei do manual. Poucos casos de vácuos foram registrados na história da navegação temporal, mas a presença deles na literatura técnica era por demais peculiar para ser ignorada. Só restava uma coisa a fazer: esperar a recomposição do fluxo e torcer para ser tragado de volta. Com quinze dias, veio o tédio, precedido pelo desespero. Chorei e gemi, maldizendo minha desdita, por quase um mês. Depois, tive raiva. Esmurrei a máquina enquanto o resto do ano se passava. Pensei em me matar. Mas convenci a nave a me imobilizar na poltrona por mais um ano.
Por Alexandre Honório - 09/12/2006

Meus registros afirmam que um oceano existia aqui. Oceano; uma das muitas palavras que eles usavam para chamar a enorme massa de água que cobria boa parte deste planeta agora seco. Ela se foi há muito; como eles, perdeu-se no tempo. Faz pouco mais de um ciclo que estou sentado aqui. Foram muitos quilômetros vagando; colhendo dados… muitos ciclos. Fui criado para tal tarefa e, depois que eles se foram, fiquei responsável por sua memória em minha memória; recordar seus costumes, histórias, eventos e mitos. Guardo seu passado.
Passado. Uma mesma palavra, tantos significados; Chronos, o tempo, segundo um de seus mitos, era responsável pelo seu surgimento. A mitologia humana era riquíssima; suas histórias eram contadas para os que queriam ouvir. Para muitos deles, alguns destes mitos representavam a história; o passado, mais uma vez não querendo ser esquecido.
[+] Leia MaisPor Alexis Peixoto - 07/12/2006

Certos sujeitos, apesar de toda a sagacidade que aplicam em sua arte, ainda conservam uma boa dose de estupidez e inconseqüência num canto afastado do cérebro. E essa estupidez, em quase 90% dos casos, se aloja com a pior das intenções o que, eventualmente, desemboca num fim trágico e/ou patético. O caso aqui é exatamente esse: a criatura funda uma das maiores bandas de todos os tempos, deita na fama, perde as estribeiras e termina boiando de cara pra baixo numa piscina. Morre Brian Jones, guitarrista e fundador dos Rolling Stones, apagam-se as luzes e a alegria bon-vivant da Swinging London. Fade out.
A história de um sujeito como esse precisa ser contada. Jones não só teve a idéia de montar uma banda que revirasse caveiras seminais como Robert Johnson, Muddy Waters e Sonny Boy Williamson, como também soube dar uma cara própria a essa idéia e mantê-la fresca e crocante ao paladar jovem durante toda a década de 1960.
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